O Ser Cantante

Inserido por em Aug 18, 2011 | artigos

O Ser Cantante

“O Sopro da criação transforma-se em som e anima a vida em todos os seres. A alma, como informação que transcende a eternidade, vibra a matéria e ressoa por toda a extensão da emoção humana em um único instante.”

Por Cecília Valentim*

O Canto Potencial

“Cantar ou falar ritmicamente é em seu sentido mais profundo uma invoca­ção ativa, uma realização, um intercâmbio no interior da camada acústica do mundo…. O mundo foi criado através da energia cantante como primeira ma­nifestação de um pensamento em que o som da vibração primordial sacrificou a si mesmo, sendo progressivamente elaborado num ritmo espiralado crescente de novas vibrações cada vez mais altas, metaforseando-se aos poucos em pedra e carne.”

M. Shneider 1

A Nova Ciência2 nos traz, a cada dia, novas informações acerca do mun­do do infinitamente pequeno, das partículas que constituem o átomo e a matéria.

Inúmeros experimentos em laboratórios de Física, em especial na Física Quântica, comprovam o que os antigos sábios da Índia já diziam há cinco mil anos: Nada Brahma3 – O mundo é som.

Na busca de uma teoria unificada4, chegamos a Teoria das Supercordas, que propõe que toda matéria e todas as forças provêm de um único componente: cordas oscilantes. A proposta dessa teoria é que as cor­das são os ingredientes ultramicroscópicos que formam as partículas, que por sua vez, compõem os átomos5. Se toda a matéria é composta por partículas, incluindo a matéria humana, podemos ousar dizer que todos nós somos vibração em origem e essência, portanto, seres vibran­tes6, cantantes por natureza.7 Somos o próprio canto, que se manifesta por meio da nossa voz.

Quando cantamos estamos usando a matéria-prima som para fazer mú­sica – Arte que se constitui de uma linguagem, signos sonoros8 e, por­tanto, integrando as funções do sentir, do processar, do perceber em estruturar em uma estética e expressão de comunicação que é por si só, forma, conteúdo, corpo e espírito, mensageiro e mensagem9. Cantamos com a totalidade do nosso Ser, comunicamos quem somos e o que sen­timos; vibramos e manifestamos nossa alma.

Canto e Consciência

“A música derrete o demorado das realidades” Guimarães Rosa

Em seu livro O Universo Autoconsciente, Amit Goswami define a cons­ciência como o fundamento do ser – original, auto-suficiente e consti­tutiva de todas as coisas – que se manifesta como o sujeito que escolhe, e experimenta o que escolhe, ao produzir o colapso auto-referencial da função de onda quântica em presença da percepção do cérebro-mente.10

Cantar é escolha: quando cantamos somos os geradores da ação de can-tar e ativamos nossos sentidos e nossa expressão; acionamos a trilha sonora que acompanha as imagens da nossa existência, registrada em um corpo emocionado que delimita o espaço-tempo ao instante em que ocorre a experiência, tornando-a única e pessoal. Abrimos as portas para outros níveis de percepção, onde sujeito e objeto se fundem e se tem a autoconsciência de ser o sujeito dessa experiência, observando a si mesmo como instrumento da própria ação11.

A consciência de nós mesmos é relativa ao sentimento de pertencer a uma totalidade, onde vibramos puramente nós mesmos; por meio do canto, eu filtro a realidade que sou naquele instante e manifesto uma dentre infinitas possibilidades. Aqui, por consciência refiro-me à cons­ciência da unidade, onde o ato de ser o próprio canto revela, contém e compõe o cantar de todos.

O Poder Cantante: reflexões

“Cada organismo possui seu próprio grau de vibração, e isso se aplica também a todo objeto inanimado, de um grão de areia a uma montanha, e mesmo a cada planeta e cada sol. Quando este grau de vibração é conhecido, torna-se possível visualizá-lo internamente e assim decompor ou tornar consciente o organismo ou a forma”.

W.Y. Evans-Wentz12

O Ser Cantante é o Ser Vibrante em origem e essência que manifesta, por meio da voz e da arte música, o canto da sua alma pela eternidade13.

O Poder Cantante é o som do verbo, informação que transgride a maté-ria e faz a mediação alquímica entre a vibração primordial e o ser que se fez carne: há uma canção acontecendo o tempo todo em meu corpo, conectando-me a outras canções e freqüências, criando uma rede e um todo, onde sou um com minha canção, compondo uma canção maior, de todos.

Bibliografia

Greene, Brian, O Universo Elegante: supercordas, dimensões ocultas e a busca de uma teoria definitiva –Companhia das Letras, São Paulo, 2001 Koestler, Arthur, O Homem e o Universo – Ed. Ibrasa , São Paulo, 1989. Berendt, Joachim-Ernest, Nada Brahma: a música e o universo da consciência

- Editora Cultrix, São Paulo.

Fabre d’Olivet, Antoine, Música apresentada como ciência e arte: estudo de suas relações analógicas com os mistérios religiosos, a mitologia antiga e a história do mundo – Madras Editora, São Paulo, 2004.

Jecupé, Kaka Werá, A terra dos mil povos: história indígena brasileira conta­da por um índio – Ed. Fundação Peirópolis, São Paulo, 1998.

Gaynor, Mitchell L., Sons que Curam – Ed. Pensamento-Cultrix, São Paulo, 1999.

Koellreutter, H.J, Terminologia para uma nova estética da música – Ed. Movi­mento, Porto Alegre, 1990

Damásio, Antônio R., O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano

– Companhia das Letras, São Paulo, 1996.

Sacks, Oliver W., O homem que confundiu sua mulher com um chapéu e ou­tras história clínicas –Companhia das Letras, São Paulo, 1997. Lowen, A, Alegria: a entrega ao corpo e a vida – Summus editora, São Paulo,

1997

Hamel, Peter M., O Autoconhecimento Através da Música: Uma nova maneira de sentir e viver a Música – Cultrix, São Paulo, 1989 Andrews, Susan, Stress a seu favor: como gerenciar sua vida em tempos de

crise – Instituto Visão Futuro, São Paulo, 2001 Sarkar, P.R,  Kiirtan, Um Meio para Elevação da Consciência. Muszkat, Mauro e colaboradores, Música e Neurociências – Artigo – Rev.

Neurociências 8, pág.70-75, 2000. Chatwin, Bruce, The Songlines – Penguin Books USA, 1988 Wilber, Ken, A Consciência sem Fronteiras: Pontos de Vista do Oriente e do

Ocidente sobre o Crescimento Pessoal – Cultrix, São Paulo, 1979.

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1 M. Scheneider – Pedras que Cantam, pág.12

2 Termo que designa um conjunto de conhecimentos e áreas do saber, como a Física Quân­tica, que estão, nos últimos anos, questionando a perspectiva materialista e racionalista da ciência predominante.

3 Na mitologia hindu, o som primordial é conhecido como Nada, que em sânscrito significa som. O cosmo nasce quando o deus Brahma, criador do mundo, o toca em seus címbalos.  Hamel, Peter M. O Autoconhecimento Através da Música, pág. 147.

4 Teoria capaz de descrever as forças da natureza por meio de  um esquema único, completo e coerente. Greene, Brian, O Universo Elegante: supercordas, dimensões ocultas e a busca da teoria definitiva, pág.9.

5 Greene, Brian – O Universo Elegante: supercordas, dimensões ocultas e a busca da teoria definitiva, cap 6,pág.156

6 Segundo Alexander Lowen, criador da Anélise Bioenergética, abordagem psicoterapeutica neo-reichiana, um corpo vivo é um corpo vibrante:“Os indivíduos cujos corpos estão cheios de vida e vibrantes conseguem sentir a realidade de seu ser e podem ser descritos como pessoas sensíveis. A sensibilidade é a qualidade de uma pessoa que está plenamente viva” – Lowen, A. – Alegria,  a entrega ao corpo e a vida, pág. 36 e 219.

7 Nesse sentido, podemos considerar a doença como uma interferência negativa ou ruído, uma distorção no nosso padrão vibratório original. Segundo Novalis, poeta e místico do romantismo, toda doença é um problema musical.

8 Koellreutter, H.J,  Terminologia de uma nova estética da Música,  pág.90.

9 Extraído do artigo Música e Neurociências de Mauro Muszkat e colaboradores-Unifesp.

10 Extraído do Livro O Universo Autoconsciente – como a consciência cria o mundo material, Amit Goswami e colaboradores, pág 324.

11 Segundo Ken Wilber, quando tentamos ouvir o ouvinte subjetivo, tudo o que encon­tramos são sons objetivos. E isso significa que não ouvimos sons, nós somos esses sons. O ouvinte é todo som ouvido, e não uma entidade separada que recua e ouve o ouvir. Wilber, Ken – A consciência sem fronteiras, pág, 71.

12 Evans-Wentz, W.Y – Antropólogo,  Editor e Tradutor – Em adendo ao Livro Tibetano dos Mortos.

13 (….) Pois a eternidade não é a consciência de um tempo sem fim, mas uma consciência que, em si mesma, situa-se fora do tempo. O momento eterno é um momento atemporal, que não conhece passado nem futuro, antes nem depois, ontem nem amanhã, nascimento nem morte. (….) Podemos dizer, e o místico concordaria, que o tempo parece suspenso em todas essas experiências porque, nelas, somos totalmente absorvidos pelo momento presente. É claro que, nesse momento presente, caso nos limitemos a examiná-lo, não existe tempo. O momento presente é um momento atemporal, e um momento atemporal é um momento eterno. Wilber, Ken – A consciência sem Fronteiras, pags 84,85.

 

 

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