Abwun D’bwashmaya

Inserido por em Feb 9, 2012 | artigos

 Abwun D’bwashmaya

Por Cecília Valentim

 

É a primeira frase em Aramaico da oração conhecida como Pai Nosso, ensinada por Jesus. Aramaico é a língua que Jesus falou. Segundo Neil Douglas- Klotz[1], a oração começa com a expressão da Divina Criação e da benção do ato de criar, trazer à luz aquilo que está na escuridão.Na  forma poética e profunda apresentada por Klotz, significa:

Ó força procriadora! Pai/Mãe do cosmos

Tu crias tudo que se move na luz

 

Ó Tu! Respiração viva de tudo que existe,

Criador do som vibrante que nos toca.

 

Respiração de todos os mundos, ouvimos

o Teu respirar – dentro e fora – em silêncio.

 

Fonte do Som: no trovão e no murmúrio,

Na brisa e no tornado, ouvimos o Teu Nome.

 

Radiância Única: Tu resplandeces dentro de nós,

Fora de nós – até na escuridão – quando nos lembramos

 

Nome dos nomes, nossa pequena identidade se

desdobra em Ti e Tu a devolves, como lição.

 

Ação sem palavras, potência silenciosa,

Onde ouvidos e olhos despertam, aí o céu advém

Ó força procriadora! Pai/Mãe do cosmos

 

Abwun é derivada da raiz ab, que se refere a toda a germinação que procede da fonte da Unidade. Abwun ressoa em sua origem os divinos progenitores, sem classificar a unidade como masculina ou feminina e vai além de qualquer definição de gênero.

Ainda segundo Klotz, de acordo com a ciência mística do som e das letras, que é comum tanto para o hebraico como para o Aramaico, podemos dizer que seu som/significado tem quatro partes:

1-       A – Ressoa o absoluto, a Unidade pura e única.

2-       Bw – Um nascer, a criação, fluxo de bênçãos da Unidade para nós.

3-       U – A respiração, o sopro do espírito que ressoa pelo som da respiração

4-       N- A manifestação criativa do Uno ao tocar, vibrar e dar à luz a forma por meio da entonação de Abwun[2].

 D’bwashmaya é a vibração[3] ou palavra[4] pela qual se reconhece o Uno, a Grande Consciência Cósmica[5].

A raiz shm indica tudo que surge e brilha no espaço e inclui luz, som[6], vibração ou palavra.

O final aya revela que cada centro de atividade está incluído potencialmente na emanação original da Luz/Som de todas as coisas.

Portanto, Shmaya[7] nos diz que a vibração pela qual se reconhece o Uno – o nome do Todo[8] – é o próprio Universo.

 

Ao entoarmos Abwun D’bwashmaya, podemos lembrar nossa origem como essencialmente criativa, perfeita e una e que, nutrida de bênçãos pulsa na respiração divina, vibrando e irradiando nossa Luz/Som pela eternidade[9].

 


[1] -Orações do Cosmos, Neil Douglas-Klotz

 

[2] Na tradição do povo Tupy, podemos entoar a palavra Avanembô, O corpo som luz de Ser, com o mesmo sentido e intenção.

 

[3]  Para as antigas tradições, o nome é uma materialização sonora da nossa vibração, por isso o  era dado e recebido com muito cuidado. Cada nome vibra a informação original- Harmônicos, que contém e estão contidos na Vibração Primordial, onde cada Ser é Um com o Uno.

 

[4] “Acredita-se que cada ancestral totêmico, ao viajar pelo país, tenha espalhado uma trilha de palavras e notas musicais ao longo de suas pegadas…Essas Trilhas de Sonhos acham-se sobre a terra como” vias “ de comunicação entre as tribos mais distantes. [Elas]….vagueavam pelo continente no Templo-dos-Sonhos cantando o nome de tudo o que cruzava o seu caminho – aves, animais, plantas, rochas e fontes de água- e, assim, fizeram com que o mundo existisse através do canto.” Bruce Chatwin, sobre os aborígenes australianos

 

[5]  Segundo o Ananda Sutram composto por Shrii Shrii Anandamurti, considerada a Escritura básica da moderna yoga, a consciência cósmica é Shiva , o núcleo da criação e em quem tudo reside.

 

[6] – “Cantar ou falar ritmicamente é em seu sentido mais profundo uma invocação ativa, uma realização, um intercâmbio no interior da camada acústica do mundo….O mundo foi criado através da energia cantante como primeira manifertação de um pensamento em que o som da vibração primordial sacrificou a si mesmo,  sendo progressivamente elaborado num ritmo espiralado crescente de novas vibrações cada vez mais altas, metaforseando-se aos poucos em pedra e carne.” Shneider, M, Pedras que Cantam, pág.12.

 

[7] Segundo Klotz, esse era o conceito de “céu” em aramaico, proferido por Jesus e normalmente mal compreendido. Em grego e mais tarde em Inglês “céu” foi esvaziado desse significado e intenção, para tornar-se um conceito metafísico e não criativo.

 

[8] (…) Se o som gerado pelas cordas vocais para criar a rede vibratória do Universo tem a faculdade da sintonização total é porque ele nos une a sinfonia cósmica. Cada criatura é a cristalização de uma parte dessa sinfonia de vibrações. Assim, assemelhamo-nos a um som que ganha a densidade da matéria a fim de vibrar contínua e ininterruptamente. Vilayat  Inayat Khan – Mestre Sufi

 

[9] Tupy; Som em pé – o corpo, habitado pelo Avá – a luz, que tem sua morada no coração.

 

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