A Revolução do ser humano pelo alargamento da sensibilidade por meio da Arte

Inserido por em Aug 15, 2016 | artigos

Por Cecília Valentim

 

“Cada ser tem sonhos a sua maneira” e cada maneira encontra outras, compondo um sonho comum, expresso na forma como vivemos, em como criamos e compartilhamos nosso mundo”

 

A verdadeira revolução[1] humana hoje, não passa pelo confronto ideológico, pelo domínio da natureza ou sobre outros povos, pelo desenvolvimento tecnológico, pelo avanço científico, pelo domínio do tempo, pela atividade exclusivamente intelectual, mas sim, pelo alargamento da sensibilidade.

Para desenvolver tal afirmação que reconheço ambiciosa, anunciada já no título desse artigo, considero importante deixar claro o significado dos termos principais usados no decorrer do texto, para que possamos caminhar juntos em sua compreensão. Em minha pesquisa sobre a palavra revolução, do latim Revolvere, encontrei alguns significados. Aquele que revela o sentido dessa palavra aqui, refere-se a “uma completa mudança de métodos, opiniões, valores como resultado de evolução”. Como sensibilidade entende-se a capacidade de perceber pelos sentidos com a consciência e compreensão do que lhe é sensível. É inerente ao ser, pois é, de fato, o único caminho para um organismo poder experimentar a existência.  Experiência é tudo: nosso movimento, nosso corpo, a percepção do espaço, sons, aquilo que nos rodeia, que nos compõe e que, em última instância, somos nós mesmos. Uma experiência que é, em primeira instância, estética, pois diz respeito ao que é percebido e apreendido[2], ao que é compreendido a partir do que é percebido. Recorrendo a etimologia, estética, do grego aesthesis, significa aquilo que é percebido pelos sentidos. Um perceber não apenas sensório, mas que ao incluir a capacidade de reconhecer e compreender o percebido, é revelada esteticamente no modo de ser e agir no mundo, que é sempre co-criado: acontece em um contexto, em uma cultura sendo, inevitavelmente, uma experiência simultaneamente pessoal, social e política. Estética e sensibilidade estão completamente amalgamadas em toda e qualquer experiência humana. A organização humana é basicamente compartilhar a estética e, politicamente, encontrar caminhos específicos para organizar a vida juntos. Compartilhar a estética é compartilhar a sensibilidade, que traz consigo o que Arnold Berleant[3] chama de consciência estética: atividade que faz pensar a experiência, nos conscientizar dos valores que emergem dela. Valor é o que consideramos importante para a vida, para as relações, que estão inerentes ao engajamento estético. Quando a percepção muda, o comportamento muda. Por isso, a sensibilidade é o que o sistema busca, obsessivamente, controlar, pois pessoas sensíveis não são previsíveis e facilmente dominadas: são criativas, questionadoras, curiosas, empáticas, livres.

Não é difícil observar como o sistema procura controlar nossa sensibilidade, criando necessidades para nos co-optar[4] , pervertendo nossos valores, enfatizando o individualismo, as relações de poder sobre o outro, o excesso. A informação manipulada e distorcida dos discursos e imagens difundidos pelos meios de comunicação de massa explora nossa sensibilidade, se apropria das nossas emoções. Manipulando nossa percepção, dá aos nossos olhos o que ver, aos ouvidos o que ouvir, à pele o que tocar, ao nariz o que cheirar. Exercendo o domínio sobre o corpo, onde reside nossa sensibilidade, nos impõe o que sentir, comer, vestir, pensar, condiciona nossa cognição. Ao apropriar-se do tempo nos coloca congelados no fazer interminável das linhas de produção, onde o tempo de ser inexiste, devorando nossa sensibilidade e nos tornando uma reprodução oca de nós mesmos:

 

“A rigor, esta “torrente de mundo exterior” se expressa na avalanche das imagens exógenas que nos assediam em todos os espaços e tempos, apropriando-se de nosso espaço e nosso tempo de vida, nossos mundos de interioridades e de nossos ritmos e durações vitais. Cedendo ao assédio, em primeiro lugar nos transformamos em imagens, seres sem interioridade, sem tempo, portanto, que ocupam o espaço reivindicado apenas pelas superfícies. Isso quer dizer, somos obrigados a viver uma abstração, um corpo sem matéria, sem massa, sem volume, apenas feito de funções abstratas como trabalho, sucesso, visibilidade, carreira, profissão, fama. Em seguida, ao ganharmos o status de imagens, passamos a viver também o destino das séries e reproduções, do tempo hiper-acelerado das versões que se sobrepõem às anteriores, destinando-as ao descarte  e já se preparando para o auto-descarte. O destino dos nossos corpos-imagens é o envelhecimento precoce das ondas da moda, o do hiper-aquecimento que gera curto-circuito. ” ( Baitello, Norval, 2005)

 

Como nas pinturas emolduradas de paisagens prontas, mantém nossa percepção estática, na superfície das coisas, naquilo que Merleau-Ponty[5] chamou de fé ingênua: as coisas são como são: sempre visíveis, uniformes, previsíveis. Em troca, o sistema oferece a imobilidade eterna, o conforto da permanência absoluta, o mundo em uma única perspectiva.

Mas o sistema que organizamos não é uma entidade fora de nós. O sistema somos nós, foi e é criado por nós diariamente. Nós o nutrimos e sustentamos. A divisão aparente entre nós e “O” sistema, criada ao longo de séculos de dualismo e racionalismo científico não existe “em si”.  É ilusória. É uma abstração humana na tentativa de compreender o mundo, colocando-se fora dele, uma ilusão que coloca “O” ambiente fora de nós e, ao fazê-lo, torna-se perniciosa e traz graves consequências para o planeta, para a comunidade humana, para comunidade planetária, permitindo ações destrutivas em nossa própria casa, ofendendo a nós mesmos.  Mas a consciência de que nós somos uma dimensão desse ambiente e que co-criamos esse sistema, abre uma janela importante para a revolver essa mentalidade e possibilitar sua transformação. É aqui que entra a arte, incorporação ativa e moduladora da nossa percepção do mundo. Na intensificação da nossa experiência por meio da arte, nossa sensibilidade está totalmente engajada, reconciliamos nossas dimensões, integramos nosso ser com o ser do mundo[6]. O engajamento da sensibilidade pelo fazer da arte é uma ação política, social:  podemos questionar a nós mesmos sobre que tipo de experiência estética estamos vivendo, subverter valores distorcidos e estagnados, abrir perspectivas, criar novas paisagens, experimentar novos movimentos e sensações[7] em nossos corpos. A arte nos encoraja a apreender novos caminhos para expressar nosso modo de ser em profundidade. Segundo Berleant, a pegar o mundo completamente:

“Pegar o mundo completamente, empregar todo o espectro da percepção é magnificar nossa experiência, nosso mundo humano, nossas vidas. O ponto, então, não é só uma expansão, mas um despertar como parte de uma totalidade, organicamente engajada, social. Isso requer um estado atento, um inteligente e ativo envolvimento com o escopo completo da experiência.” (Berleant, p.24)

Nesse artigo, abordo um tipo específico de arte: O canto.

O canto como arte cria o campo estético para que nossa sensibilidade esteja totalmente engajada. Ao engajar-se na ação de cantar, o cantor se torna um com o canto, alargando sua percepção, sua sensibilidade. De fato, se torna o próprio canto:  o corpo do cantor que gera o canto é o mesmo que é vibrado pelo som criado. O corpo é onde a voz canta[8]; não é apenas um recurso ou objeto, mas o meio pelo qual experimentamos e manifestamos a totalidade do nosso ser. Um corpo emocionado que traz dentro de si o registro de toda experiência vivida, que cria marcadores somáticos[9] que modelam uma forma e um modo de ser e agir no mundo e definem a qualidade sonora e expressiva daquele que canta, que se move em direção a si mesmo, que fala a todos os seus sentidos em um movimento unificado:

“Ou seja, os aspectos sensoriais de uma coisa constituem conjuntamente uma mesma coisa, como o olhar, o tato e todos os outros sentidos são conjuntamente os poderes de um mesmo corpo integrados em uma única ação. Em suma: os sentidos se comunicam. E, paradoxalmente, isso ocorre porque o corpo é uno”. (Frayse-Pereira,2010, p.177)

O canto e aquele que canta são inseparáveis. Portanto, a expressão do cantante, manifestada simultaneamente no corpo e no ambiente, é resultado de uma série de fatores que o influenciam, que determinam a qualidade da experiência, que é revelada pela voz, impondo o aprofundamento de um tipo específico de percepção que envolve a escuta do corpo “em-si”, dos movimentos internos que o constitui, de suas possibilidades expressivas (Merleau-Ponty, 1961inFrayse-Pereira, 2005 p.47) e a consciência, daquele que canta, que ao cantar se torna visível e vidente, cantado e cantante, ouvinte e audível, tocante e tocado, para além do corpo na densidade da matéria:

“Ainda mais uma vez: a carne de que falamos não é a matéria. Consiste no enovelamento do visível sobre o corpo vidente, do tangível sobre o corpo tangente, atestado, sobretudo quando o corpo se vê, se toca vendo e tocando as coisas, de forma que, simultaneamente, como tangível, desce entre elas, como tangente, domina-as todas, extraindo de si próprio essa relação, e mesmo essa dupla relação por deiscência ou fissão de sua massa” (MerleauPonty, 1964, p.141).

Um corpo comparável à obra de arte:

 

“É o corpo que permite a pregnância das experiências auditivas, táteis e visuais, fundando a unidade predicativa do mundo percebido que, por sua vez, servirá de referência à expressão verbal e a significação intelectual. Nesse sentido, não é ao objeto físico que o corpo é comparável, mas sobretudo à obra de arte. Quer dizer: Uma pintura, um poema, uma peça musical são indivíduos, isto é, seres nos quais não é possível distinguir a expressão daquilo que exprime, cujo sentido só é acessível mediante o contato direto, sem que abandone seu lugar espacial e temporal”( Frayse-Pereira p.182).

 

O corpo do canto é um corpo engajado, totalmente presente em uma experiência onde o campo sensível é constituído pelo fazer de uma arte que é ele mesmo. O engajamento estético gerado pelo canto possibilita ao cantante alargar e refinar sua sensibilidade, a auto percepção, a auto cognição, a reconhecer os valores que emergem da sua expressão.  Ao reconhecer, compreender e expressar tais valores, pode transformá-los. Em suma, ao refinar a sensibilidade, seu canto muda, ao mudar o canto, o ambiente muda.  O engajamento estético proporcionado pelo canto se torna uma ação transformadora e revolucionária que é, inevitavelmente, pessoal, política e social.

Bibliografia

BAITELLO, Norval. A sociedade das imagens em série e a cultura do eco. Artigo: Revista F@ro Nº2

BERLEANT, Arnold. Aesthetic Beyond the Art. USA: Routledge, 2012

BERLEANT, Arnold. The Aesthetic Fields: A Phenomenology of Aesthetic Experience. New Zealand: Cybereditions Corporation, 2000.

BERLEANT, Arnold. The Aesthetics of environment. Philadelphia: Temple University Press, 1992.

BERLEANT, Arnold. Sensibility and Sense. UK: St Andrews Studies in Philosophy and Public Affairs, 2010.

DAMÁSIO, Antônio R. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano.São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

FRAYSE-PEREIRA, João A. Arte, dor: inquietudes entre estética e psicanálise. São Paulo: Ateliê Editorial, 2005.

MERLEAU-PONTY, M. O visível e o invisível. São Paulo: Perspectiva, 2012.


[1] Significado social da palavra revolução: uma completa mudança de métodos, opiniões, valores, como resultado de uma evolução. Do latim Revolvere, etimologicamente significa revirar, mexer alguma coisa, remexer, remexer-se, deslocar.

[2] Falo aqui da percepção mais do que sensação porque percepção inclui mais do que a percepção sensória. A expressão “sense perception” denota a parte sensória da percepção, de apenas parte das influências do ambiente. Mas esta sensação é mediada, qualificada, apreendida e formada por uma multiplicidade de fatores: biológico, social, cultural e de forças materiais (concretas?) que são partes integrantes do mundo humano. (Berleant, Sensibility and Sense, pg.5)

[3] Arnold Berleant é filósofo e músico. Como filósofo, é professor emérito de Filosofia da Universidade de Long Island (EUA) e ex-presidente da Associação Internacional de Estética. É autor de diversos livros e artigos, em particular sobre estética, estética ambiental e ética. Como músico, é pianista e compositor, com diversas obras publicadas para piano, música de câmera e canto. Berleant encontra na estética uma fonte, um sinal e um padrão de valor humano. Sua teoria da Experiência estética se origina da compreensão aprofundada da palavra Aesthesis, que etimologicamente significa perceber pelos sentidos. É uma teoria da sensibilidade. Tal conceito é básico em suas duas áreas de atuação. As ideias filosóficas de Berleant se desenvolvem a partir de uma interpretação radical da experiência influenciada pelo naturalismo pragmático não fundacional e da franqueza indivisa da fenomenologia existencial.  Na arte e meio ambiente, enfatiza o engajamento e a apreciação ativa em contraposição a contemplação desinteressada proposta por Kant. Na ética, reconhece o caráter provisório e contextual do valor. Na metafísica considera as realidades múltiplas e a fluidez das coisas, em filosofia social afirma o poder das forças culturais, a interpenetração e conectividade da comunidade.

[4]  co-optar, segundo Arnold Berleant, é pegar algo de outro para seu próprio uso. Apropriação.

[5] “Toda análise reflexionante não é falsa, mas ainda é ingênua enquanto dissimular sua própria mola e, para constituir o mundo, for preciso ter noção do mundo como pré-constituído, de modo que o processo se retarda, por princípio, em si mesmo”. (Merleau-Ponty, M. O Visivel e o invisível, pg 43)

[6] Meu acesso pela reflexão a um espírito universal, longe de descobrir enfim o que sou desde sempre, está motivado pelo entrelaçamento da minha vida com as outroas vidas, de meu campo perceptivo com o de outros, pela mistura de minha duração com as outras durações. ” (Merleau Ponty, M. O Visível e o invisível, pg. 59. “A carne (a do mundo ou a minha) não é contingência, caos, mas textura que regressa a si e convém a si mesma” (idem, p.142)

[7] Sensação não é apenas sensória, como não é só psicológica. Ela se funde com as influências culturais. Esse é, de fato o único caminho que um organismo cultural pode experimentar. A separação entre sensação e significado é uma das sutis divisões que a atual experiência não suporta mais. Como seres sociais, nós percebemos através dos modos da nossa cultura (Berleant, A. Aesthetic Beyond the Art, pg 53.)

[8] Escrevendo sobre a música vocal, Roland Barthes enfatiza o corpo e encontra nesse gênero musical o performer e o ouvinte como um só: “ A semente é o corpo onde a voz canta”

[9]“Em suma, os marcadores somáticos são um caso especial do uso de sentimentos gerados a partir de emoções secundárias. Essas emoções e sentimentos foram ligados, pela aprendizagem, a resultados futuros previstos de determinados cenários”. (Damásio. A, 1996, p.206)

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