A Arte do Ser Cantante

Inserido por em Nov 29, 2011 | artigos

                                                               

                                                                                                                                            Por Cecília Valentim

 

I – O Poder do Canto

“Acredita-se que cada ancestral totêmico, ao viajar pelo país, tenha espalhado uma trilha de palavras e notas musicais ao longo de suas pegadas…Essas Trilhas de Sonhos acham-se sobre a terra como” vias “ de comunicação entre as tribos mais distantes. [Elas]….vagueavam pelo continente no Templo-dos-Sonhos cantando o nome de tudo o que cruzava o seu caminho – aves, animais, plantas, rochas e fontes de água- e, assim, fizeram com que o mundo existisse através do canto.”

                                                                                                                  Bruce Chatwin em The Songlines

                                                                                                                 (Sobre  os aborígenes australianos)

 

Em todas as culturas o Canto surge como via de conexão do humano com o divino, o sagrado e o indizível, em  busca de um melhor entendimento de si mesmo, da sua relação com o mundo e com a natureza, possibilitando um senso de comunidade e cooperação. O canto ritual dos povos primitivos, o canto do poeta trágico, o canto gregoriano, os cantos de amor dos trovadores medievais, o canto das lavadeiras e carpideiras do nordeste, são algumas das manifestações dessa busca. Portanto, a relação do humano com o cantar é natural e inata.  As referências do poder da música e do canto são ancestrais; Pitágoras já propunha uma ordem sonora ou escala para cada humor. Os xamãs[1] até hoje  utilizam o canto para afastar os maus espíritos, curar doenças e favorecer a colheita. Mais recentemente, pesquisas têm corroborado a utilização do canto com finalidades terapêuticas, na liberação do fluxo de energia reprimindo, no restabelecimento da conexão com os sentimentos e na restauração da espontaneidade e expressão dos afetos.

 

II- Canto e Cura

…”Pitágoras achava que a música poderia dar uma grande contribuição para a saúde se fosse usada de maneira correta…Ele chamou a este método de medicina musical. Os seus discípulos cantavam em uníssono determinados cânticos ou peãs, com os quais eles pareciam se deleitar, tornando-os melodiosos e rítmicos. Em outras ocasiões, os seus discípulos também empregavam  a música como remédio, sendo determinadas melodias compostas para curar as paixões da mente e outras para o desânimo e a angustia mental. Além desses usos médicos, havia outras melodias para a raiva  e a agressão e todas a perturbações psíquicas”.   

                                                                                                                                                      Jâmblico

                                                                                                                       (filósofo do séc. XVI, sobre Pitágoras)

 

  • O Ser Cantante 

 

“Cantar ou falar ritmicamente é em seu sentido mais profundo uma invocação ativa, uma realização, um intercâmbio no interior da camada acústica do mundo….O mundo foi criado através da energia cantante como primeira manifestação de um pensamento em que o som da vibração primordial sacrificou a si mesmo, sendo progressivamente elaborado num ritmo espiralado crescente de novas vibrações cada vez mais altas, metaforseando-se aos poucos em pedra e carne.”    M. Shneider [2]                                                                                                                                                                                                                  

A Nova Ciência[3] nos traz, a cada dia, novas informações acerca do mundo do infinitamente pequeno, das partículas que constituem o átomo e a matéria.

Inúmeros experimentos em laboratórios de Física, em especial na Física Quântica, comprovam o que os antigos sábios da Índia já diziam há cinco mil anos: Nada Brahma[4] – O mundo é som.

Na busca de uma teoria unificada[5], chegamos a Teoria das Supercordas, que propõe que toda matéria e todas as forças provêm de um único componente: cordas oscilantes. A proposta desta teoria é que as cordas são os ingredientes ultramicroscópicos que formam as partículas, que por sua vez, compõem os átomos[6]. Se toda a matéria é composta por partículas, incluindo a matéria humana, podemos arriscar dizer que todos nós somos vibração em origem e essência, portanto, seres vibrantes[7], cantantes por natureza.[8]

Quando cantamos estamos usando a matéria-prima som para fazer música – Arte que se constitui de uma linguagem, signos sonoros[9], e, portanto integrando as funções do sentir, do processar, do perceber em estruturar em uma estética e expressão de comunicação que é, por si só, forma, conteúdo, corpo e espírito, mensageiro e mensagem[10]. Cantamos com a totalidade do nosso Ser, comunicamos quem somos e o que sentimos; vibramos e manifestamos nossa alma.

 

  • O Corpo Emocionado

Vivemos em um corpo constantemente modulado pelas nossas experiências, emocionado a todo instante.

Em termos fisiológicos básicos, quando cantamos há,, uma maior oxigenação do cérebro, alterando o estado de consciência e  uma maior liberação de hormônios e neurotransmissores[11] que acontece de acordo com a experiência do momento e com a história pessoal definindo a emoção que é acionada. Em termos da bioquímica da emoção, ao cantarmos, conectamos com nossa experiência em relação aos sentimentos que a música traduz. Se a experiência é consonante, liberamos serotonina, dopamina e endorfinas, se dissonante, adrenalina e cortizol. É importante lembrar que as emoções geram a reação química e a reação química modula as emoções. Se o Cantante se permite à expressão dos sentimentos, ele aumenta o fluxo nas áreas instrutivas do cérebro, diminuindo conexões negativas e criando novos marcadores somáticos[12].

 

  • Canto e Cérebro

Em termos das funções cerebrais, diferentes áreas processam o som, modificando a amplitude das ondas elétricas do cérebro. De modo geral as funções musicais são complexas, múltiplas e de localizações assimétricas, envolvendo o hemisfério direito para altura, timbre e discriminação melódica e o esquerdo para ritmos. A música, mais que qualquer outra arte, tem uma representação neuropsicológica extensa. No Canto, isso se amplia, na medida em que atua, por meio da música, nas áreas límbicas, tendo acesso direto à afetividade e, ao mesmo tempo, nas  áreas cerebrais responsáveis pela linguagem. Em nível da percepção global, deflagra áreas não só auditivas mas, gustatórias, olfatórias e visuais. Constituímos uma trilha sonora que acompanha as imagens da nossa existência.

No cantar, A melodia, que é o que cantamos, é voltada para o contexto, é configurativa[13], relacionada às áreas posteriores do cérebro, que também são responsáveis pela mímica que acompanha nossas reações corporais ao som, registrando uma seqüência de eventos – uma gestalt[14] – acompanhada por uma intencionalidade. Essa intencionalidade conecta áreas frontais do cérebro, acionando um “chip” que liga o contexto a todas as experiências e restabelece outras formas em paralelo, ou seja, conecta a experiências adormecidas, trazendo-as à consciência, abrindo a possibilidade para a elaboração e a reconfiguração da experiência.

 

III- Canto e Consciência

 “Cada organismo possui seu próprio grau de vibração, e isso se aplica também a todo objeto inanimado, de um grão de areia a uma montanha, e mesmo a cada planeta e cada sol. Quando este grau de vibração é conhecido, torna-se possível visualizá-lo internamente e assim decompor ou tornar consciente o organismo ou a forma”.      W.Y. Evans-Wentz[15]

                                                                                       

                                                 A Música derrete o demorado das realidades”   Guimarães Rosa

 

Em seu livro O Universo Autoconsciente, Amit Goswami define a  consciência  como o fundamento do ser – original, auto-suficiente e constitutiva de todas as coisas – que se manifesta como o sujeito que escolhe, e experimenta o que escolhe, ao produzir o colapso auto-referencial da função de onda quântica em presença da percepção do cérebro-mente.[16]

Cantar é escolha: quando cantamos somos os geradores da ação de cantar e ativamos nossos sentidos e nossa expressão; acionamos a trilha sonora que acompanha as imagens da nossa existência, registrada em um corpo emocionado que delimita o espaço-tempo ao instante em que ocorre a experiência, tornando-a única e pessoal. Abrimos as portas para outros níveis de percepção, onde sujeito e objeto se fundem e se tem a autoconsciência de ser o sujeito dessa experiência, observando a si mesmo como instrumento da própria ação[17].         

O Poder Cantante é o som do verbo, informação que transgride a  Matéria e faz a mediação alquímica entre a vibração primordial e o  Ser que se fez carne.

O Ser Cantante é o Ser Vibrante em origem e essência que  manifesta, por meio da voz e da arte música, o canto da sua alma  pela eternidade[18].

    

 IV-Cantos Circulares             

“Trabalhe com o som até ficar surpreso pelo fato de o estar produzindo e surpreso pelo fato de ser exatamente você o instrumento através do qual o divino flautista forma seus sons. Torne-se você mesmo  uma vibração que transcende o espaço. Se o som gerado pelas cordas vocais para criar a rede vibratória do universo tem a faculdade  da sintonização total é porque ele nos une a sinfonia cósmica. Cada criatura é a cristalização  de uma parte dessa sinfonia de vibrações. Assim, assemelhamo-nos a  um som que ganha a densidade da matéria, a fim de vibrar contínua e initerruptamente.”    

Vilayat Inayat Khan (mestre Sufi)                                                               

 

Os  Cantos Circulares estão presentes em todas as tradições como guias para o mundo espiritual, para a cura e o encontro do humano com sua natureza divina e cósmica. Uma das formas mais antigas e conhecidas de Canto Circular é o Mantra. Outros exemplos são o Canto Gregoriano, na tradição Cristã , o Nigun, na tradição Judaica Chassídica e o Zikr, na tradição Sufi.

A palavra Mantra significa “o som que liberta a mente”.

Segundo as antigas escrituras da Índia, ao longo da coluna vertebral e no cérebro, existem sete centros de energia ou “chakras”. A ideação e a vibração acústica sutil do mantra ressoam nos centros energéticos dos chakras e nas glândulas endócrinas a elas associadas, equilibrando o fluxo de energia do corpo, refletindo diretamente na saúde corpóreomental do praticante.

Encontramos referências a este mesmo tema em textos sagrados do Budismo Tibetano, entre os Hebreus, os Bizantinos e os Persas. No Brasil, na tradição Guarani, o humano é considerado Tu-py[20], ou seja, flauta em pé, afinada a partir dos tons essenciais do ser, tons que participam de todos os seres, assim como a série harmônica compõe todos os sons e cada som é uma determinada composição de harmônicos. São sete os tons[21] que os antigos guaranis utilizavam para afinar o espírito. Estes tons são as vogais Y U O A E I , do primeiro ao sexto chakra e, por último, o som “insonoro”, no sétimo chakra. Estudos acadêmicos mostram que cantar em geral, mas, principalmente Cantos Circulares, modula as ondas elétricas do cérebro, leva a uma maior coerência cerebral e amplitude das ondas Alfa e Teta[22], semelhante aos estados de meditação, abrindo as portas para outros níveis de consciência[23].Isto se dá pela forma circular do canto que, musicalmente, significa a ausência de sensação de começo e fim,  simplicidade na estrutura melódica, harmônica e rítmica e pela repetição da frase, que gera um pulso regular[24].  Estudos empíricos mostram que cada vogal e cada harmônico vibra em um determinado chackra[25]. Portanto, através dos Cantos Circulares, altas freqüências ressoam em nosso organismo, em cada centro energético sutil do nosso corpo, transformando a dissonância em consonância, a incoerência em coerência, dissolvendo as interferências que geram distorções em nosso padrão original e restaurando a vibração onde somos puramente nós mesmos, compondo uma vibração maior, de todos.


  • O presente artigo é parte de pesquisas, práticas e reflexões realizadas por Cecília Valentim e faz parte dos fundamentos teóricos da Abordagem da Arte do Ser Cantante.

 



[1] Termo pelo qual são conhecidos os sacerdotes espirituais ou curandeiros em diversas tradições.

[2] M. Scheneider – Pedras que Cantam, pág.12

[3] Termo que designa um conjunto de conhecimentos e áreas do saber, como a Física Quântica, que estão, nos últimos anos, questionando a perspectiva materialista e racionalista da ciência predominante.

[4] Na mitologia hindu, o som primordial é conhecido como Nada, que em sânscrito significa som. O cosmo nasce quando o deus Brahma, criador do mundo, o toca em seus címbalos.  Hamel, Peter M. O Autoconhecimento Através da Música, pág. 147.

[5] Teoria capaz de descrever as forças da natureza por meio de  um esquema único, completo e coerente. Greene, Brian, O Universo Elegante: supercordas, dimensões ocultas e a busca da teoria definitiva, pág.9.

[6]Greene, Brian – O Universo Elegante: supercordas, dimensões ocultas e a busca da teoria definitiva, cap 6,pág.156

[7] Segundo Alexander Lowen, criador da Anélise Bioenergética, abordagem psicoterapeutica neo-reichiana, um corpo vivo é um corpo vibrante: “Os indivíduos cujos corpos estão cheios de vida e vibrantes conseguem sentir a realidade de seu ser e podem ser descritos como pessoas sensíveis. A sensibilidade é a qualidade de uma pessoa que está plenamente viva” – Lowen, A. – Alegria,  a entrega ao corpo e a vida, pág. 36 e 219.

[8] Neste sentido, podemos considerar a doença como uma interferência negativa ou ruído, uma distorção no nosso padrão vibratório original. Segundo Novalis, poeta e místico do romantismo, toda doença é um problema musical.

[9] Koellreutter, H.J, Terminologia de uma nova estética da Música,  pág.90.

[10] Extraído do artigo Música e Neurociências de Mauro Muszkat e colaboradores-Unifesp.

[11] Substâncias químicas responsáveis pela comunicação entre as células nervosas , os neurônios.

[12]  Marcadores Somáticos: teoria desenvolvida pelo neurocientista português Antônio Damásio em seu livro O erro de Descartes, pág. 197: “…Em suma, os marcadores somáticos são um caso especial do uso de sentimentos gerados a partir de emoções secundárias. Essas emoções e sentimentos foram ligados pela aprendizagem, a resultados futuros previstos de determinados cenários. Quando um marcador somático negativo é justaposto a um determinado resultado futuro, a combinação funciona como uma campainha de alarme. Quando, ao contrário, é justaposto a um marcador somático positivo, o resultado é um incentivo”

[13] Possui determinada ordem sonora que lhe confere significado.

[14] Segundo H.J. Koellreutter, O termo gestalt,  de origem alemã, não possui, na língua portuguesa, tradução que lhe dê sentido exato.  Pode-se dizer que  é a percepção imediata dos eventos pelo todo e não pelas partes.

[15] Evans-Wentz, W.Y – Antropólogo, Editor e Tradutor – Em adendo ao Livro Tibetano dos Mortos.

[16] Extraído do Livro O Universo Autoconsciente – como a consciência cria o mundo material, Amit Goswami e colaboradores, pág 324.

[17] Segundo Ken Wilber, quando tentamos ouvir o ouvinte subjetivo, tudo o que encontramos são sons objetivos. E isso significa que não ouvimos sons, nós somos esses sons. O ouvinte é todo som ouvido, e não uma entidade separada que recua e ouve o ouvir.  Wilber, Ken – A consciência sem fronteiras, pág, 71.

[18] (….) Pois a eternidade não é a consciência de um tempo sem fim, mas uma consciência que, em si mesma, situa-se fora do tempo. O momento eterno é um momento atemporal, que não conhece passado nem futuro, antes nem depois, ontem nem amanhã, nascimento nem morte. (….) Podemos dizer, e o místico concordaria, que o tempo parece suspenso em todas essas experiências porque, nelas, somos totalmente absorvidos pelo momento presente. É claro que, nesse momento presente, caso nos limitemos a examiná-lo, não existe tempo. O momento presente é um momento atemporal, e um momento atemporal é um momento eterno. Wilber, Ken – A consciência sem Fronteiras, pags 84,85.

[19] Kiirtan é um tipo especial de mantra que expressa o poder da devoção.

[20]Tu-Py: Som em pé – o corpo, habitado pelo Avá – a luz, que tem sua morada no coração. O Corpo Som-Luz de Ser.

[21] Kaká Werá: A Terra dos Mil Povos, 4ºedição.

[22] Alfa e Teta são ondas elétricas cerebrais, que se diferenciam pela forma, amplitude  e ritmo. Ondas elétricas cerebrais  são ondas eletromagnéticas produzidas pelas células cerebrais, medidas por ciclos por segundo (Hertz) e mudam de acordo com a atividade elétrica dos neurônios. Cada padrão de onda está relacionado com um  estado diferente de consciência. Ondas Alfa, cuja freqüência varia de8 a 12 Hz, estão relacionadas ao relaxamento, estado mental de atenção e serenidade. Pesquisas levam a crer que nesta freqüência há uma elevação na produção de serotonina, neurotransmissor relacionado ao estado de bem-estar e ao alívio da dor. A falta de serotonina está relacionada aos estados de depressão.Ondas Teta são ondas cuja freqüência varia de4 a8Hz e estão relacionadas aos estados de meditação profunda e vigília. Pesquisas aportam, no estado Teta, para uma maior produção de catecolaminas, neurotransmissor ligado à memória, plasticidade mental e aprendizagem. Em ambos os estados – Alfa e Teta- verifica-se uma maior produção de endorfinas, neurotransmissor responsável pelos estados de maior concentração, pacificação, prazer e alegria interior.

[23] “As canções são enraizadas no mundo físico, mas seu impacto está nas camadas mais sutis da mente humana. As canções produzem uma onda vibracional que faz nossas ondas mentais tornarem-se retas e, ao endireitar, as ondas mentais tocam, por sua vez, no ponto da alma”Citação de P.R. Sarkar, mestre indiano.

[24] “Cantar ou falar ritmicamente é em seu sentido mais profundo uma invocação ativa, uma realização, um intercâmbio no interior da camada acústica do mundo….O mundo foi criado através da energia cantante como primeira manifertação de um pensamento em que o som da vibração primordial sacrificou a si mesmo,  sendo progressivamente elaborado num ritmo espiralado crescente de novas vibrações cada vez mais altas, metaforseando-se aos poucos em pedra e carne.” Shneider, M, Pedras que Cantam, pág.12.

[25] “O segredo era bem conhecido por mestres de todas as épocas: os antigos rishis (videntes) indianos, que viviam solitários nas escarpas do Himalaia, os sufis persas, adeptos do culto a Zoroastro, os sarcedotes nas pirâmides esípcias, os magos vudu e os curandeiros da África e da América do Sul sabiam e sabem que as sílabas e palavras mântricas, sejam elas cantadas ou recitadas, provocam um fenômeno interno sutil, que gradualmente despertam os centros invisíveis de energia, levando-os a dimensões profundas da consciência.” Hamel, Peter M., O Autoconhecimento Através da Música, cap.III,  pág. 148 e149.

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