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A Revolução do ser humano pelo alargamento da sensibilidade por meio da Arte

Posted by on Aug 15, 2016 in artigos | 0 comments

Por Cecília Valentim

 

“Cada ser tem sonhos a sua maneira” e cada maneira encontra outras, compondo um sonho comum, expresso na forma como vivemos, em como criamos e compartilhamos nosso mundo”

 

A verdadeira revolução[1] humana hoje, não passa pelo confronto ideológico, pelo domínio da natureza ou sobre outros povos, pelo desenvolvimento tecnológico, pelo avanço científico, pelo domínio do tempo, pela atividade exclusivamente intelectual, mas sim, pelo alargamento da sensibilidade.

Para desenvolver tal afirmação que reconheço ambiciosa, anunciada já no título desse artigo, considero importante deixar claro o significado dos termos principais usados no decorrer do texto, para que possamos caminhar juntos em sua compreensão. Em minha pesquisa sobre a palavra revolução, do latim Revolvere, encontrei alguns significados. Aquele que revela o sentido dessa palavra aqui, refere-se a “uma completa mudança de métodos, opiniões, valores como resultado de evolução”. Como sensibilidade entende-se a capacidade de perceber pelos sentidos com a consciência e compreensão do que lhe é sensível. É inerente ao ser, pois é, de fato, o único caminho para um organismo poder experimentar a existência.  Experiência é tudo: nosso movimento, nosso corpo, a percepção do espaço, sons, aquilo que nos rodeia, que nos compõe e que, em última instância, somos nós mesmos. Uma experiência que é, em primeira instância, estética, pois diz respeito ao que é percebido e apreendido[2], ao que é compreendido a partir do que é percebido. Recorrendo a etimologia, estética, do grego aesthesis, significa aquilo que é percebido pelos sentidos. Um perceber não apenas sensório, mas que ao incluir a capacidade de reconhecer e compreender o percebido, é revelada esteticamente no modo de ser e agir no mundo, que é sempre co-criado: acontece em um contexto, em uma cultura sendo, inevitavelmente, uma experiência simultaneamente pessoal, social e política. Estética e sensibilidade estão completamente amalgamadas em toda e qualquer experiência humana. A organização humana é basicamente compartilhar a estética e, politicamente, encontrar caminhos específicos para organizar a vida juntos. Compartilhar a estética é compartilhar a sensibilidade, que traz consigo o que Arnold Berleant[3] chama de consciência estética: atividade que faz pensar a experiência, nos conscientizar dos valores que emergem dela. Valor é o que consideramos importante para a vida, para as relações, que estão inerentes ao engajamento estético. Quando a percepção muda, o comportamento muda. Por isso, a sensibilidade é o que o sistema busca, obsessivamente, controlar, pois pessoas sensíveis não são previsíveis e facilmente dominadas: são criativas, questionadoras, curiosas, empáticas, livres.

Não é difícil observar como o sistema procura controlar nossa sensibilidade, criando necessidades para nos co-optar[4] , pervertendo nossos valores, enfatizando o individualismo, as relações de poder sobre o outro, o excesso. A informação manipulada e distorcida dos discursos e imagens difundidos pelos meios de comunicação de massa explora nossa sensibilidade, se apropria das nossas emoções. Manipulando nossa percepção, dá aos nossos olhos o que ver, aos ouvidos o que ouvir, à pele o que tocar, ao nariz o que cheirar. Exercendo o domínio sobre o corpo, onde reside nossa sensibilidade, nos impõe o que sentir, comer, vestir, pensar, condiciona nossa cognição. Ao apropriar-se do tempo nos coloca congelados no fazer interminável das linhas de produção, onde o tempo de ser inexiste, devorando nossa sensibilidade e nos tornando uma reprodução oca de nós mesmos:

 

“A rigor, esta “torrente de mundo exterior” se expressa na avalanche das imagens exógenas que nos assediam em todos os espaços e tempos, apropriando-se de nosso espaço e nosso tempo de vida, nossos mundos de interioridades e de nossos ritmos e durações vitais. Cedendo ao assédio, em primeiro lugar nos transformamos em imagens, seres sem interioridade, sem tempo, portanto, que ocupam o espaço reivindicado apenas pelas superfícies. Isso quer dizer, somos obrigados a viver uma abstração, um corpo sem matéria, sem massa, sem volume, apenas feito de funções abstratas como trabalho, sucesso, visibilidade, carreira, profissão, fama. Em seguida, ao ganharmos o status de imagens, passamos a viver também o destino das séries e reproduções, do tempo hiper-acelerado das versões que se sobrepõem às anteriores, destinando-as ao descarte  e já se preparando para o auto-descarte. O destino dos nossos corpos-imagens é o envelhecimento precoce das ondas da moda, o do hiper-aquecimento que gera curto-circuito. ” ( Baitello, Norval, 2005)

 

Como nas pinturas emolduradas de paisagens prontas, mantém nossa percepção estática, na superfície das coisas, naquilo que Merleau-Ponty[5] chamou de fé ingênua: as coisas são como são: sempre visíveis, uniformes, previsíveis. Em troca, o sistema oferece a imobilidade eterna, o conforto da permanência absoluta, o mundo em uma única perspectiva.

Mas o sistema que organizamos não é uma entidade fora de nós. O sistema somos nós, foi e é criado por nós diariamente. Nós o nutrimos e sustentamos. A divisão aparente entre nós e “O” sistema, criada ao longo de séculos de dualismo e racionalismo científico não existe “em si”.  É ilusória. É uma abstração humana na tentativa de compreender o mundo, colocando-se fora dele, uma ilusão que coloca “O” ambiente fora de nós e, ao fazê-lo, torna-se perniciosa e traz graves consequências para o planeta, para a comunidade humana, para comunidade planetária, permitindo ações destrutivas em nossa própria casa, ofendendo a nós mesmos.  Mas a consciência de que nós somos uma dimensão desse ambiente e que co-criamos esse sistema, abre uma janela importante para a revolver essa mentalidade e possibilitar sua transformação. É aqui que entra a arte, incorporação ativa e moduladora da nossa percepção do mundo. Na intensificação da nossa experiência por meio da arte, nossa sensibilidade está totalmente engajada, reconciliamos nossas dimensões, integramos nosso ser com o ser do mundo[6]. O engajamento da sensibilidade pelo fazer da arte é uma ação política, social:  podemos questionar a nós mesmos sobre que tipo de experiência estética estamos vivendo, subverter valores distorcidos e estagnados, abrir perspectivas, criar novas paisagens, experimentar novos movimentos e sensações[7] em nossos corpos. A arte nos encoraja a apreender novos caminhos para expressar nosso modo de ser em profundidade. Segundo Berleant, a pegar o mundo completamente:

“Pegar o mundo completamente, empregar todo o espectro da percepção é magnificar nossa experiência, nosso mundo humano, nossas vidas. O ponto, então, não é só uma expansão, mas um despertar como parte de uma totalidade, organicamente engajada, social. Isso requer um estado atento, um inteligente e ativo envolvimento com o escopo completo da experiência.” (Berleant, p.24)

Nesse artigo, abordo um tipo específico de arte: O canto.

O canto como arte cria o campo estético para que nossa sensibilidade esteja totalmente engajada. Ao engajar-se na ação de cantar, o cantor se torna um com o canto, alargando sua percepção, sua sensibilidade. De fato, se torna o próprio canto:  o corpo do cantor que gera o canto é o mesmo que é vibrado pelo som criado. O corpo é onde a voz canta[8]; não é apenas um recurso ou objeto, mas o meio pelo qual experimentamos e manifestamos a totalidade do nosso ser. Um corpo emocionado que traz dentro de si o registro de toda experiência vivida, que cria marcadores somáticos[9] que modelam uma forma e um modo de ser e agir no mundo e definem a qualidade sonora e expressiva daquele que canta, que se move em direção a si mesmo, que fala a todos os seus sentidos em um movimento unificado:

“Ou seja, os aspectos sensoriais de uma coisa constituem conjuntamente uma mesma coisa, como o olhar, o tato e todos os outros sentidos são conjuntamente os poderes de um mesmo corpo integrados em uma única ação. Em suma: os sentidos se comunicam. E, paradoxalmente, isso ocorre porque o corpo é uno”. (Frayse-Pereira,2010, p.177)

O canto e aquele que canta são inseparáveis. Portanto, a expressão do cantante, manifestada simultaneamente no corpo e no ambiente, é resultado de uma série de fatores que o influenciam, que determinam a qualidade da experiência, que é revelada pela voz, impondo o aprofundamento de um tipo específico de percepção que envolve a escuta do corpo “em-si”, dos movimentos internos que o constitui, de suas possibilidades expressivas (Merleau-Ponty, 1961inFrayse-Pereira, 2005 p.47) e a consciência, daquele que canta, que ao cantar se torna visível e vidente, cantado e cantante, ouvinte e audível, tocante e tocado, para além do corpo na densidade da matéria:

“Ainda mais uma vez: a carne de que falamos não é a matéria. Consiste no enovelamento do visível sobre o corpo vidente, do tangível sobre o corpo tangente, atestado, sobretudo quando o corpo se vê, se toca vendo e tocando as coisas, de forma que, simultaneamente, como tangível, desce entre elas, como tangente, domina-as todas, extraindo de si próprio essa relação, e mesmo essa dupla relação por deiscência ou fissão de sua massa” (MerleauPonty, 1964, p.141).

Um corpo comparável à obra de arte:

 

“É o corpo que permite a pregnância das experiências auditivas, táteis e visuais, fundando a unidade predicativa do mundo percebido que, por sua vez, servirá de referência à expressão verbal e a significação intelectual. Nesse sentido, não é ao objeto físico que o corpo é comparável, mas sobretudo à obra de arte. Quer dizer: Uma pintura, um poema, uma peça musical são indivíduos, isto é, seres nos quais não é possível distinguir a expressão daquilo que exprime, cujo sentido só é acessível mediante o contato direto, sem que abandone seu lugar espacial e temporal”( Frayse-Pereira p.182).

 

O corpo do canto é um corpo engajado, totalmente presente em uma experiência onde o campo sensível é constituído pelo fazer de uma arte que é ele mesmo. O engajamento estético gerado pelo canto possibilita ao cantante alargar e refinar sua sensibilidade, a auto percepção, a auto cognição, a reconhecer os valores que emergem da sua expressão.  Ao reconhecer, compreender e expressar tais valores, pode transformá-los. Em suma, ao refinar a sensibilidade, seu canto muda, ao mudar o canto, o ambiente muda.  O engajamento estético proporcionado pelo canto se torna uma ação transformadora e revolucionária que é, inevitavelmente, pessoal, política e social.

Bibliografia

BAITELLO, Norval. A sociedade das imagens em série e a cultura do eco. Artigo: Revista F@ro Nº2

BERLEANT, Arnold. Aesthetic Beyond the Art. USA: Routledge, 2012

BERLEANT, Arnold. The Aesthetic Fields: A Phenomenology of Aesthetic Experience. New Zealand: Cybereditions Corporation, 2000.

BERLEANT, Arnold. The Aesthetics of environment. Philadelphia: Temple University Press, 1992.

BERLEANT, Arnold. Sensibility and Sense. UK: St Andrews Studies in Philosophy and Public Affairs, 2010.

DAMÁSIO, Antônio R. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano.São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

FRAYSE-PEREIRA, João A. Arte, dor: inquietudes entre estética e psicanálise. São Paulo: Ateliê Editorial, 2005.

MERLEAU-PONTY, M. O visível e o invisível. São Paulo: Perspectiva, 2012.


[1] Significado social da palavra revolução: uma completa mudança de métodos, opiniões, valores, como resultado de uma evolução. Do latim Revolvere, etimologicamente significa revirar, mexer alguma coisa, remexer, remexer-se, deslocar.

[2] Falo aqui da percepção mais do que sensação porque percepção inclui mais do que a percepção sensória. A expressão “sense perception” denota a parte sensória da percepção, de apenas parte das influências do ambiente. Mas esta sensação é mediada, qualificada, apreendida e formada por uma multiplicidade de fatores: biológico, social, cultural e de forças materiais (concretas?) que são partes integrantes do mundo humano. (Berleant, Sensibility and Sense, pg.5)

[3] Arnold Berleant é filósofo e músico. Como filósofo, é professor emérito de Filosofia da Universidade de Long Island (EUA) e ex-presidente da Associação Internacional de Estética. É autor de diversos livros e artigos, em particular sobre estética, estética ambiental e ética. Como músico, é pianista e compositor, com diversas obras publicadas para piano, música de câmera e canto. Berleant encontra na estética uma fonte, um sinal e um padrão de valor humano. Sua teoria da Experiência estética se origina da compreensão aprofundada da palavra Aesthesis, que etimologicamente significa perceber pelos sentidos. É uma teoria da sensibilidade. Tal conceito é básico em suas duas áreas de atuação. As ideias filosóficas de Berleant se desenvolvem a partir de uma interpretação radical da experiência influenciada pelo naturalismo pragmático não fundacional e da franqueza indivisa da fenomenologia existencial.  Na arte e meio ambiente, enfatiza o engajamento e a apreciação ativa em contraposição a contemplação desinteressada proposta por Kant. Na ética, reconhece o caráter provisório e contextual do valor. Na metafísica considera as realidades múltiplas e a fluidez das coisas, em filosofia social afirma o poder das forças culturais, a interpenetração e conectividade da comunidade.

[4]  co-optar, segundo Arnold Berleant, é pegar algo de outro para seu próprio uso. Apropriação.

[5] “Toda análise reflexionante não é falsa, mas ainda é ingênua enquanto dissimular sua própria mola e, para constituir o mundo, for preciso ter noção do mundo como pré-constituído, de modo que o processo se retarda, por princípio, em si mesmo”. (Merleau-Ponty, M. O Visivel e o invisível, pg 43)

[6] Meu acesso pela reflexão a um espírito universal, longe de descobrir enfim o que sou desde sempre, está motivado pelo entrelaçamento da minha vida com as outroas vidas, de meu campo perceptivo com o de outros, pela mistura de minha duração com as outras durações. ” (Merleau Ponty, M. O Visível e o invisível, pg. 59. “A carne (a do mundo ou a minha) não é contingência, caos, mas textura que regressa a si e convém a si mesma” (idem, p.142)

[7] Sensação não é apenas sensória, como não é só psicológica. Ela se funde com as influências culturais. Esse é, de fato o único caminho que um organismo cultural pode experimentar. A separação entre sensação e significado é uma das sutis divisões que a atual experiência não suporta mais. Como seres sociais, nós percebemos através dos modos da nossa cultura (Berleant, A. Aesthetic Beyond the Art, pg 53.)

[8] Escrevendo sobre a música vocal, Roland Barthes enfatiza o corpo e encontra nesse gênero musical o performer e o ouvinte como um só: “ A semente é o corpo onde a voz canta”

[9]“Em suma, os marcadores somáticos são um caso especial do uso de sentimentos gerados a partir de emoções secundárias. Essas emoções e sentimentos foram ligados, pela aprendizagem, a resultados futuros previstos de determinados cenários”. (Damásio. A, 1996, p.206)

A série harmônica e as mutações da percepção humana: uma breve reflexão

Posted by on Mar 4, 2015 in artigos | 1 comment

A Série Harmônica e as Mutações da Percepção Humana:Uma breve reflexão

Na cosmogonia das antigas tradições fala-se do universo como um campo de vibrações e do humano como uma composição dessas vibrações corporificada:Nada Bhrama, tudo é som no Induismo (Hamel, 1995, pg.145), o Verbo, de onde surge toda luz, no Cristianismo, a Cabala no Judaísmo (Berendict,1997, pg.215), Nhamandu, o grande silêncio eTupã, o grande trovão, para o povo Tupy( Wera, 1989, pg. 23-25), na tradição nativa brasileira,  para citar apenas algumas. Na jornada da consciência humana (Goswami, 2007, pg 324)em busca de uma compreensão acerca de si mesmo e do universo que o rodeia, em um campo de percepções dentro de um espectro que está em constante mutação ( Wilber, 1979, pg.41),chegamos à Nova Ciência que nos traz, a cada dia, novas informações acerca do mundo do infinitamente pequeno, das partículas que constituem o átomo e a matéria.Na busca de uma teoria unificada(Green,  pg.9)encontramos a Teoria das Supercordas, que propõe que toda matéria e todas as forças provêm de um único componente: cordas oscilantes. A proposta desta teoria é que as cordas são os ingredientes ultramicroscópicos que formam as partículas, que por sua vez, compõem os átomos (Green,pg 156) . A essência da matéria é um filamento vibratório.

 O mundo é som:

 “Acredita-se que cada ancestral totêmico, ao viajar pelo país, tenha espalhado uma trilha de palavras e notas musicais ao longo de suas pegadas…Essas Trilhas de Sonhos acham-se sobre a terra como” vias “ de comunicação entre as tribos mais distantes. [Elas]….vagueavam pelo continente no Templo-dos-Sonhos cantando o nome de tudo o que cruzava o seu caminho – aves, animais, plantas, rochas e fontes de água- e, assim, fizeram com que o mundo existisse através do canto.”

Bruce Chatwinem The Songlines (Sobreos aborígenes australianos)

 A apreensão do mundo como som que se transforma em música, nos fala de uma mutação da percepção humana ao longo de sua trajetória no mundo. Podemos dizer que a música estava lá antes de nós e que em um dado momento, o humano a percebeu nos encadeamentos sonoros dos seus próprios movimentos e da natureza, encarnando-a em uma consciência musical coletiva e intuitiva (Petraglia, pg.189).Uma nova percepção começa a despontar simultaneamente:a percepção do tempo. O mundo é som dentro de um ciclo.

Na história do Ocidente, as raízes dessa apreensão e seu desenvolvimento estãona ancestralidade das culturas grega e judaica. Aqui, nos remetemos a Pitágoras e a Harmonia das Esferas, que de dentro de um silêncio inimaginável para nós, ouvia a vibração dos planetas e chegou a definir a frequência entre eles: segundo Plínio, Pítagoras achava que o intervalo musical formado pela Terra e pela Lua era de um tom; da Lua a Mercúrio, um semitom; de Mercúrio a Venus, um semitom, de Venus ao Sol, uma terça menor; de Sol a Marte, um tom, de Marte a Júpiter, um semitom; de Júpiter a Saturno, um semitom; de saturno a esfera das estrelas fixas, uma terça menor. Portanto, a Escala Pitagórica resultante era dó, ré, mib, sol, lá, sib, si, ré. (Koestler,1989, pg. 12).A concepção de tonalidade ainda não existia e surge alguns séculos depois. Nesse momento, o paradigma eraa proporção entre as relações intervalares. Podemos supor que o que realmente Pitágoras estava ouvindo eram os harmônicos do movimento celestial?

Para Pitágoras, o número como unidade, era o sentido de tudo, assim como a música, a quem conferia emseu sonho, uma harmonia capaz de governar o movimento cósmico e o poder de arrancar respostas da profundidade do espirito inconsciente.

“Mas então, no âmago da noite, quando o torpor cobre os sentidos mortais, eu escuto a harmonia da sereia celestial.”(Milton, em Arcades)

Logo depois, a descoberta dos números irracionais coloca a Irmandade Pitágorica em crise. Um novo estado de consciência sobrevém.As proporções acústicas reveladas pela civilização grega são retomadas e tratadas cientificamente porJohannes Kepler, que estabelece que há, realmente, leis musicais nas orbitas dos planetas. Em seu livro De HarmoniceMundi,(libri V, Linz, 1619)no qual busca alinhar a poesia da humanidade ao raciocínio científico emergente na época,Kepler diz:

De fôlego ao céu e você realmente ouvirá música. Há um ConcentusIntellectualis, uma harmonia espiritual que proporciona prazer aos seres puramente espirituais e, de certa forma, ao próprio Deus, assim como os acordes musicais dão prazer aos ouvidos humanos.

E assim, seguimos o caminho paranovas percepções e mutações da consciência. Ampliando nossa percepção do tempo, cada vez mais passamos a nos guiar por essa medida. O mundo é som dentro de um tempo medido por nós. Assim como o tempo, as frequências passam a ser medidas e determinadas. O conceito de harmonia se transforma e necessita ser regido por leis, bem como em todos os campos das ações e relações humanas.

Na trilha das descobertas,novas percepções e desenvolvimento tecnológio, chega-se a uma constatação: o que se entende por som no sentido físico é uma única vibração audível, mas a cada som produzido naturalmente surgem outros segundo leis naturais que soam ao mesmo tempo de forma muito suave, designados de harmônicos. O mundo é som em um espaço-tempo, um fenômeno psicoacústico que está além das nossas percepções puramente sensoriais. Diz Hermann Helmholtz, em 1857 (HelmholtzinHamel, 1995, pg 136):

Há, ainda, a participação de uma atividade característica da alma para se chegar da sensação dos nervos até a representação daquele objeto que provocou a sensação.

Completa Hamel:

Para se perceberharmônicos é preciso um tipo muito especial de atenção, caso contrário permanecem ocultos(…)Ouvir o espectro de sons harmônicos, mergulhar na série harmônica natural, é uma meditação sonora para a auto-realização, que faz parte  de numerosas escolas asiáticas e árabes.

Nas escolas do Oriente estamos em um mundo Uno, não dividido. Música, espirito, matéria, pensamento, razão e emoção fazem parte de um único campo em movimento: o Ser

Dessa perspectiva, a série harmônica é percebida como constitutiva desse Ser, que é vibração em essência, o som potencial, materializado em um corpo físico.

No Brasil, para os Tupy, somos flauta em pé,habitados pelo Avá, a luz que tem sua morada no coração: o corpo som-luz de Ser.Tu significa som e py, acento. Os Tupy falam, também, como nas tradições do Oriente, de sete centros de energia, chamados de nhangá-mirim. O último centro, no topo da cabeça é o centro do “som insonoro”.

Aqui, encontramos a ponte entre Oriente e Ocidente, em um mundo não dividido. Hamel aponta: “Segundo a lei da vibração e proporções acústicas da antiga teoria musical grega, um objeto pode ser decomposto por meio de seu som básico específico, quando a vibração básica ou específica se um determinado objeto ou material é conhecida”. Segundo o Livro Tibetano dos Mortos,

“Cada organismo possui seu próprio grau de vibração, e isso se aplica também a todo objeto inanimado, de um grão de areia a uma montanha, e mesmo a cada planeta e cada sol. Quando este grau de vibração é conhecido, torna-se possível visualiza-lo internamente e assim decompor ou tornar consciente o organismo e a forma”.

AmitGoswami, físico e matemático quânticoafirma: “tudo é vibração, tudo é Onda”. Inaugura-se uma nova consciência: aqui e agora, o Universoé onda, colapsado como som. Uma Gestalt se fecha?

O Canto dos Harmônicos e outros instrumentos específicos

Nas tradições do oriente e nas tradições nativas, são inúmeros os instrumentos que tem a finalidade de destacar harmônicos: A tigelas de metal, dos Tibetanos, o Didgeridoo, dos aborígenes australianos, os cymbalos, a Tambura e o sitar na cultura da Índia, a flauta Jacuí, dos Tupy-Guarani, são exemplos da necessidade de transpor para música aquilo que é ouvido em essência.

Uma das práticas mais conhecidas no Oriente é o Canto dos Harmônicos ou OvertoneChanting. Reza a lenda que uma noite, em 1433, o Lama Tibetano JeTzongSherabSenge teve um sonho revelador. Nele, ouviu uma voz que jamais tinha ouvido: era grave, incrivelmente profunda, um som que não parecia humano. Combinado a esta voz, havia uma segunda, aguda e pura, como a voz de uma criança cantando. Estas duas vozes, totalmente diferentes, tinham a mesma origem, que era ele mesmo. No sonho, JeTzong é instruido a incorporar este canto especial em suas práticas de meditação. Foi–lhe revelado como “um canto que integra os aspectos femininos e masculinos da energia divina, uma voz tântrica que une todos os cantos na rede da consciência universal”. (Jonatham Goldman, HealingSound).

O Canto dos Harmônicos torna audível o espectro natural das frequências que compõem cada som. É uma forma de canto onde se pode cantar simultaneamente uma nota (fundamental) e seus harmônicos, selecionando-os e amplificando-os por meio de uma técnica simples e específica. São altas frequências que flutuam acima do som fundamental emitido pelo cantor. A técnica envolve a criação de uma determinada cavidade acústica dentro da boca, dada pela língua, pelo abaixamento da laringe e o uso de uma sequência de vogais que configura e seleciona harmônicos específicos. Alguns cantores, em especial em Tuva, região da Mongólia, são capazes de cantar de cinco a seis frequências acima da nota fundamental, simultaneamente.

Estudos acadêmicos iniciais sugerem que cantar em geral, mas, principalmente cantar os harmônicos, modula as ondas elétricas do cérebro, leva a uma maior coerência cerebral e amplitude das ondas Alpha e Theta, semelhante aos estados de meditação, abrindo as portas para outros níveis de consciência.  Dentro das antigas tradições, acredita-se que cada vogal e cada harmônico vibra em um determinado “chackra”(Hamel, 1995, pg.148). São altas frequências que ressoam em nosso organismo, em cada centro energético sutil do nosso corpo. Encontramos referências a isto em textos do Budismo Tibetano e entre os Guaranis, que em sua tradição, como dito antes, consideram ohumano um Tu-py, ou seja, flauta em pé, afinada a partir dos tons essenciais do ser, tons que participam de todos os seres, assim como a série harmônica compõe todos os sons e cada som é uma determinada composição de harmônicos.Eis a sequência de vogais encontrada em ambas as tradições: Y, U, O, A, E, I. Nesta sequência, cada vogal se refere a um chacka, a partir do chacka da raiz, na base do osso. No sétimo chacka, , no topo da cabeça, reside o silêncio ou o “som-insonoro”.(Werá, 1998, pg. 24-25) .

 

Referências Bibliográficas

BERENDT, Joachim-Ernest.Nada Brahma: a música e o universo da consciência. São Paulo: Editora Cultrix, 1986.

FABRE D’OLIVET, Antoine.Música apresentada como ciência e arte: estudo de suas relações analógicas com os mistérios religiosos, a mitologia antiga e a história do mundo. São Paulo: Madras Editora, 2004.

GOSWAMI, Amit, O Universo Autoconsciente – como a consciência cria o mundo material.São Paulo: Aleph,2007.

GREENE, Brian. O Universo Elegante: supercordas, dimensões ocultas e a busca de uma teoria definitiva. São Paulo:Companhia das Letras,2001

HAMEL, Peter M.O Autoconhecimento Através da Música: Uma nova maneira de sentir e viver a Música. São Paulo: Cultrix, 1989.

JACUPÉ, KakaWerá. A terra dos mil povos: história indígena brasileira contada por um índio. São Paulo: Ed. Fundação Peirópolis, 1998.

KOESTLER, Arthur. O Homem e o Universo. São Paulo: Ed. Ibrasa, 1989.

PETRAGLIA, Marcelo. A música e sua relação com o ser humano.São Paulo: Ouvirativo, 2010

 

 

 

 

Abwun D’bwashmaya

Posted by on Feb 9, 2012 in artigos | 3 comments

 Abwun D’bwashmaya

Por Cecília Valentim

 

É a primeira frase em Aramaico da oração conhecida como Pai Nosso, ensinada por Jesus. Aramaico é a língua que Jesus falou. Segundo Neil Douglas- Klotz[1], a oração começa com a expressão da Divina Criação e da benção do ato de criar, trazer à luz aquilo que está na escuridão.Na  forma poética e profunda apresentada por Klotz, significa:

Ó força procriadora! Pai/Mãe do cosmos

Tu crias tudo que se move na luz

 

Ó Tu! Respiração viva de tudo que existe,

Criador do som vibrante que nos toca.

 

Respiração de todos os mundos, ouvimos

o Teu respirar – dentro e fora – em silêncio.

 

Fonte do Som: no trovão e no murmúrio,

Na brisa e no tornado, ouvimos o Teu Nome.

 

Radiância Única: Tu resplandeces dentro de nós,

Fora de nós – até na escuridão – quando nos lembramos

 

Nome dos nomes, nossa pequena identidade se

desdobra em Ti e Tu a devolves, como lição.

 

Ação sem palavras, potência silenciosa,

Onde ouvidos e olhos despertam, aí o céu advém

Ó força procriadora! Pai/Mãe do cosmos

 

Abwun é derivada da raiz ab, que se refere a toda a germinação que procede da fonte da Unidade. Abwun ressoa em sua origem os divinos progenitores, sem classificar a unidade como masculina ou feminina e vai além de qualquer definição de gênero.

Ainda segundo Klotz, de acordo com a ciência mística do som e das letras, que é comum tanto para o hebraico como para o Aramaico, podemos dizer que seu som/significado tem quatro partes:

1-       A – Ressoa o absoluto, a Unidade pura e única.

2-       Bw – Um nascer, a criação, fluxo de bênçãos da Unidade para nós.

3-       U – A respiração, o sopro do espírito que ressoa pelo som da respiração

4-       N- A manifestação criativa do Uno ao tocar, vibrar e dar à luz a forma por meio da entonação de Abwun[2].

 D’bwashmaya é a vibração[3] ou palavra[4] pela qual se reconhece o Uno, a Grande Consciência Cósmica[5].

A raiz shm indica tudo que surge e brilha no espaço e inclui luz, som[6], vibração ou palavra.

O final aya revela que cada centro de atividade está incluído potencialmente na emanação original da Luz/Som de todas as coisas.

Portanto, Shmaya[7] nos diz que a vibração pela qual se reconhece o Uno – o nome do Todo[8] – é o próprio Universo.

 

Ao entoarmos Abwun D’bwashmaya, podemos lembrar nossa origem como essencialmente criativa, perfeita e una e que, nutrida de bênçãos pulsa na respiração divina, vibrando e irradiando nossa Luz/Som pela eternidade[9].

 


[1] -Orações do Cosmos, Neil Douglas-Klotz

 

[2] Na tradição do povo Tupy, podemos entoar a palavra Avanembô, O corpo som luz de Ser, com o mesmo sentido e intenção.

 

[3]  Para as antigas tradições, o nome é uma materialização sonora da nossa vibração, por isso o  era dado e recebido com muito cuidado. Cada nome vibra a informação original- Harmônicos, que contém e estão contidos na Vibração Primordial, onde cada Ser é Um com o Uno.

 

[4] “Acredita-se que cada ancestral totêmico, ao viajar pelo país, tenha espalhado uma trilha de palavras e notas musicais ao longo de suas pegadas…Essas Trilhas de Sonhos acham-se sobre a terra como” vias “ de comunicação entre as tribos mais distantes. [Elas]….vagueavam pelo continente no Templo-dos-Sonhos cantando o nome de tudo o que cruzava o seu caminho – aves, animais, plantas, rochas e fontes de água- e, assim, fizeram com que o mundo existisse através do canto.” Bruce Chatwin, sobre os aborígenes australianos

 

[5]  Segundo o Ananda Sutram composto por Shrii Shrii Anandamurti, considerada a Escritura básica da moderna yoga, a consciência cósmica é Shiva , o núcleo da criação e em quem tudo reside.

 

[6] – “Cantar ou falar ritmicamente é em seu sentido mais profundo uma invocação ativa, uma realização, um intercâmbio no interior da camada acústica do mundo….O mundo foi criado através da energia cantante como primeira manifertação de um pensamento em que o som da vibração primordial sacrificou a si mesmo,  sendo progressivamente elaborado num ritmo espiralado crescente de novas vibrações cada vez mais altas, metaforseando-se aos poucos em pedra e carne.” Shneider, M, Pedras que Cantam, pág.12.

 

[7] Segundo Klotz, esse era o conceito de “céu” em aramaico, proferido por Jesus e normalmente mal compreendido. Em grego e mais tarde em Inglês “céu” foi esvaziado desse significado e intenção, para tornar-se um conceito metafísico e não criativo.

 

[8] (…) Se o som gerado pelas cordas vocais para criar a rede vibratória do Universo tem a faculdade da sintonização total é porque ele nos une a sinfonia cósmica. Cada criatura é a cristalização de uma parte dessa sinfonia de vibrações. Assim, assemelhamo-nos a um som que ganha a densidade da matéria a fim de vibrar contínua e ininterruptamente. Vilayat  Inayat Khan – Mestre Sufi

 

[9] Tupy; Som em pé – o corpo, habitado pelo Avá – a luz, que tem sua morada no coração.

 

A Arte do Ser Cantante

Posted by on Nov 29, 2011 in artigos | 0 comments

                                                               

                                                                                                                                            Por Cecília Valentim

 

I – O Poder do Canto

“Acredita-se que cada ancestral totêmico, ao viajar pelo país, tenha espalhado uma trilha de palavras e notas musicais ao longo de suas pegadas…Essas Trilhas de Sonhos acham-se sobre a terra como” vias “ de comunicação entre as tribos mais distantes. [Elas]….vagueavam pelo continente no Templo-dos-Sonhos cantando o nome de tudo o que cruzava o seu caminho – aves, animais, plantas, rochas e fontes de água- e, assim, fizeram com que o mundo existisse através do canto.”

                                                                                                                  Bruce Chatwin em The Songlines

                                                                                                                 (Sobre  os aborígenes australianos)

 

Em todas as culturas o Canto surge como via de conexão do humano com o divino, o sagrado e o indizível, em  busca de um melhor entendimento de si mesmo, da sua relação com o mundo e com a natureza, possibilitando um senso de comunidade e cooperação. O canto ritual dos povos primitivos, o canto do poeta trágico, o canto gregoriano, os cantos de amor dos trovadores medievais, o canto das lavadeiras e carpideiras do nordeste, são algumas das manifestações dessa busca. Portanto, a relação do humano com o cantar é natural e inata.  As referências do poder da música e do canto são ancestrais; Pitágoras já propunha uma ordem sonora ou escala para cada humor. Os xamãs[1] até hoje  utilizam o canto para afastar os maus espíritos, curar doenças e favorecer a colheita. Mais recentemente, pesquisas têm corroborado a utilização do canto com finalidades terapêuticas, na liberação do fluxo de energia reprimindo, no restabelecimento da conexão com os sentimentos e na restauração da espontaneidade e expressão dos afetos.

 

II- Canto e Cura

…”Pitágoras achava que a música poderia dar uma grande contribuição para a saúde se fosse usada de maneira correta…Ele chamou a este método de medicina musical. Os seus discípulos cantavam em uníssono determinados cânticos ou peãs, com os quais eles pareciam se deleitar, tornando-os melodiosos e rítmicos. Em outras ocasiões, os seus discípulos também empregavam  a música como remédio, sendo determinadas melodias compostas para curar as paixões da mente e outras para o desânimo e a angustia mental. Além desses usos médicos, havia outras melodias para a raiva  e a agressão e todas a perturbações psíquicas”.   

                                                                                                                                                      Jâmblico

                                                                                                                       (filósofo do séc. XVI, sobre Pitágoras)

 

  • O Ser Cantante 

 

“Cantar ou falar ritmicamente é em seu sentido mais profundo uma invocação ativa, uma realização, um intercâmbio no interior da camada acústica do mundo….O mundo foi criado através da energia cantante como primeira manifestação de um pensamento em que o som da vibração primordial sacrificou a si mesmo, sendo progressivamente elaborado num ritmo espiralado crescente de novas vibrações cada vez mais altas, metaforseando-se aos poucos em pedra e carne.”    M. Shneider [2]                                                                                                                                                                                                                  

A Nova Ciência[3] nos traz, a cada dia, novas informações acerca do mundo do infinitamente pequeno, das partículas que constituem o átomo e a matéria.

Inúmeros experimentos em laboratórios de Física, em especial na Física Quântica, comprovam o que os antigos sábios da Índia já diziam há cinco mil anos: Nada Brahma[4] – O mundo é som.

Na busca de uma teoria unificada[5], chegamos a Teoria das Supercordas, que propõe que toda matéria e todas as forças provêm de um único componente: cordas oscilantes. A proposta desta teoria é que as cordas são os ingredientes ultramicroscópicos que formam as partículas, que por sua vez, compõem os átomos[6]. Se toda a matéria é composta por partículas, incluindo a matéria humana, podemos arriscar dizer que todos nós somos vibração em origem e essência, portanto, seres vibrantes[7], cantantes por natureza.[8]

Quando cantamos estamos usando a matéria-prima som para fazer música – Arte que se constitui de uma linguagem, signos sonoros[9], e, portanto integrando as funções do sentir, do processar, do perceber em estruturar em uma estética e expressão de comunicação que é, por si só, forma, conteúdo, corpo e espírito, mensageiro e mensagem[10]. Cantamos com a totalidade do nosso Ser, comunicamos quem somos e o que sentimos; vibramos e manifestamos nossa alma.

 

  • O Corpo Emocionado

Vivemos em um corpo constantemente modulado pelas nossas experiências, emocionado a todo instante.

Em termos fisiológicos básicos, quando cantamos há,, uma maior oxigenação do cérebro, alterando o estado de consciência e  uma maior liberação de hormônios e neurotransmissores[11] que acontece de acordo com a experiência do momento e com a história pessoal definindo a emoção que é acionada. Em termos da bioquímica da emoção, ao cantarmos, conectamos com nossa experiência em relação aos sentimentos que a música traduz. Se a experiência é consonante, liberamos serotonina, dopamina e endorfinas, se dissonante, adrenalina e cortizol. É importante lembrar que as emoções geram a reação química e a reação química modula as emoções. Se o Cantante se permite à expressão dos sentimentos, ele aumenta o fluxo nas áreas instrutivas do cérebro, diminuindo conexões negativas e criando novos marcadores somáticos[12].

 

  • Canto e Cérebro

Em termos das funções cerebrais, diferentes áreas processam o som, modificando a amplitude das ondas elétricas do cérebro. De modo geral as funções musicais são complexas, múltiplas e de localizações assimétricas, envolvendo o hemisfério direito para altura, timbre e discriminação melódica e o esquerdo para ritmos. A música, mais que qualquer outra arte, tem uma representação neuropsicológica extensa. No Canto, isso se amplia, na medida em que atua, por meio da música, nas áreas límbicas, tendo acesso direto à afetividade e, ao mesmo tempo, nas  áreas cerebrais responsáveis pela linguagem. Em nível da percepção global, deflagra áreas não só auditivas mas, gustatórias, olfatórias e visuais. Constituímos uma trilha sonora que acompanha as imagens da nossa existência.

No cantar, A melodia, que é o que cantamos, é voltada para o contexto, é configurativa[13], relacionada às áreas posteriores do cérebro, que também são responsáveis pela mímica que acompanha nossas reações corporais ao som, registrando uma seqüência de eventos – uma gestalt[14] – acompanhada por uma intencionalidade. Essa intencionalidade conecta áreas frontais do cérebro, acionando um “chip” que liga o contexto a todas as experiências e restabelece outras formas em paralelo, ou seja, conecta a experiências adormecidas, trazendo-as à consciência, abrindo a possibilidade para a elaboração e a reconfiguração da experiência.

 

III- Canto e Consciência

 “Cada organismo possui seu próprio grau de vibração, e isso se aplica também a todo objeto inanimado, de um grão de areia a uma montanha, e mesmo a cada planeta e cada sol. Quando este grau de vibração é conhecido, torna-se possível visualizá-lo internamente e assim decompor ou tornar consciente o organismo ou a forma”.      W.Y. Evans-Wentz[15]

                                                                                       

                                                 A Música derrete o demorado das realidades”   Guimarães Rosa

 

Em seu livro O Universo Autoconsciente, Amit Goswami define a  consciência  como o fundamento do ser – original, auto-suficiente e constitutiva de todas as coisas – que se manifesta como o sujeito que escolhe, e experimenta o que escolhe, ao produzir o colapso auto-referencial da função de onda quântica em presença da percepção do cérebro-mente.[16]

Cantar é escolha: quando cantamos somos os geradores da ação de cantar e ativamos nossos sentidos e nossa expressão; acionamos a trilha sonora que acompanha as imagens da nossa existência, registrada em um corpo emocionado que delimita o espaço-tempo ao instante em que ocorre a experiência, tornando-a única e pessoal. Abrimos as portas para outros níveis de percepção, onde sujeito e objeto se fundem e se tem a autoconsciência de ser o sujeito dessa experiência, observando a si mesmo como instrumento da própria ação[17].         

O Poder Cantante é o som do verbo, informação que transgride a  Matéria e faz a mediação alquímica entre a vibração primordial e o  Ser que se fez carne.

O Ser Cantante é o Ser Vibrante em origem e essência que  manifesta, por meio da voz e da arte música, o canto da sua alma  pela eternidade[18].

    

 IV-Cantos Circulares             

“Trabalhe com o som até ficar surpreso pelo fato de o estar produzindo e surpreso pelo fato de ser exatamente você o instrumento através do qual o divino flautista forma seus sons. Torne-se você mesmo  uma vibração que transcende o espaço. Se o som gerado pelas cordas vocais para criar a rede vibratória do universo tem a faculdade  da sintonização total é porque ele nos une a sinfonia cósmica. Cada criatura é a cristalização  de uma parte dessa sinfonia de vibrações. Assim, assemelhamo-nos a  um som que ganha a densidade da matéria, a fim de vibrar contínua e initerruptamente.”    

Vilayat Inayat Khan (mestre Sufi)                                                               

 

Os  Cantos Circulares estão presentes em todas as tradições como guias para o mundo espiritual, para a cura e o encontro do humano com sua natureza divina e cósmica. Uma das formas mais antigas e conhecidas de Canto Circular é o Mantra. Outros exemplos são o Canto Gregoriano, na tradição Cristã , o Nigun, na tradição Judaica Chassídica e o Zikr, na tradição Sufi.

A palavra Mantra significa “o som que liberta a mente”.

Segundo as antigas escrituras da Índia, ao longo da coluna vertebral e no cérebro, existem sete centros de energia ou “chakras”. A ideação e a vibração acústica sutil do mantra ressoam nos centros energéticos dos chakras e nas glândulas endócrinas a elas associadas, equilibrando o fluxo de energia do corpo, refletindo diretamente na saúde corpóreomental do praticante.

Encontramos referências a este mesmo tema em textos sagrados do Budismo Tibetano, entre os Hebreus, os Bizantinos e os Persas. No Brasil, na tradição Guarani, o humano é considerado Tu-py[20], ou seja, flauta em pé, afinada a partir dos tons essenciais do ser, tons que participam de todos os seres, assim como a série harmônica compõe todos os sons e cada som é uma determinada composição de harmônicos. São sete os tons[21] que os antigos guaranis utilizavam para afinar o espírito. Estes tons são as vogais Y U O A E I , do primeiro ao sexto chakra e, por último, o som “insonoro”, no sétimo chakra. Estudos acadêmicos mostram que cantar em geral, mas, principalmente Cantos Circulares, modula as ondas elétricas do cérebro, leva a uma maior coerência cerebral e amplitude das ondas Alfa e Teta[22], semelhante aos estados de meditação, abrindo as portas para outros níveis de consciência[23].Isto se dá pela forma circular do canto que, musicalmente, significa a ausência de sensação de começo e fim,  simplicidade na estrutura melódica, harmônica e rítmica e pela repetição da frase, que gera um pulso regular[24].  Estudos empíricos mostram que cada vogal e cada harmônico vibra em um determinado chackra[25]. Portanto, através dos Cantos Circulares, altas freqüências ressoam em nosso organismo, em cada centro energético sutil do nosso corpo, transformando a dissonância em consonância, a incoerência em coerência, dissolvendo as interferências que geram distorções em nosso padrão original e restaurando a vibração onde somos puramente nós mesmos, compondo uma vibração maior, de todos.


  • O presente artigo é parte de pesquisas, práticas e reflexões realizadas por Cecília Valentim e faz parte dos fundamentos teóricos da Abordagem da Arte do Ser Cantante.

 



[1] Termo pelo qual são conhecidos os sacerdotes espirituais ou curandeiros em diversas tradições.

[2] M. Scheneider – Pedras que Cantam, pág.12

[3] Termo que designa um conjunto de conhecimentos e áreas do saber, como a Física Quântica, que estão, nos últimos anos, questionando a perspectiva materialista e racionalista da ciência predominante.

[4] Na mitologia hindu, o som primordial é conhecido como Nada, que em sânscrito significa som. O cosmo nasce quando o deus Brahma, criador do mundo, o toca em seus címbalos.  Hamel, Peter M. O Autoconhecimento Através da Música, pág. 147.

[5] Teoria capaz de descrever as forças da natureza por meio de  um esquema único, completo e coerente. Greene, Brian, O Universo Elegante: supercordas, dimensões ocultas e a busca da teoria definitiva, pág.9.

[6]Greene, Brian – O Universo Elegante: supercordas, dimensões ocultas e a busca da teoria definitiva, cap 6,pág.156

[7] Segundo Alexander Lowen, criador da Anélise Bioenergética, abordagem psicoterapeutica neo-reichiana, um corpo vivo é um corpo vibrante: “Os indivíduos cujos corpos estão cheios de vida e vibrantes conseguem sentir a realidade de seu ser e podem ser descritos como pessoas sensíveis. A sensibilidade é a qualidade de uma pessoa que está plenamente viva” – Lowen, A. – Alegria,  a entrega ao corpo e a vida, pág. 36 e 219.

[8] Neste sentido, podemos considerar a doença como uma interferência negativa ou ruído, uma distorção no nosso padrão vibratório original. Segundo Novalis, poeta e místico do romantismo, toda doença é um problema musical.

[9] Koellreutter, H.J, Terminologia de uma nova estética da Música,  pág.90.

[10] Extraído do artigo Música e Neurociências de Mauro Muszkat e colaboradores-Unifesp.

[11] Substâncias químicas responsáveis pela comunicação entre as células nervosas , os neurônios.

[12]  Marcadores Somáticos: teoria desenvolvida pelo neurocientista português Antônio Damásio em seu livro O erro de Descartes, pág. 197: “…Em suma, os marcadores somáticos são um caso especial do uso de sentimentos gerados a partir de emoções secundárias. Essas emoções e sentimentos foram ligados pela aprendizagem, a resultados futuros previstos de determinados cenários. Quando um marcador somático negativo é justaposto a um determinado resultado futuro, a combinação funciona como uma campainha de alarme. Quando, ao contrário, é justaposto a um marcador somático positivo, o resultado é um incentivo”

[13] Possui determinada ordem sonora que lhe confere significado.

[14] Segundo H.J. Koellreutter, O termo gestalt,  de origem alemã, não possui, na língua portuguesa, tradução que lhe dê sentido exato.  Pode-se dizer que  é a percepção imediata dos eventos pelo todo e não pelas partes.

[15] Evans-Wentz, W.Y – Antropólogo, Editor e Tradutor – Em adendo ao Livro Tibetano dos Mortos.

[16] Extraído do Livro O Universo Autoconsciente – como a consciência cria o mundo material, Amit Goswami e colaboradores, pág 324.

[17] Segundo Ken Wilber, quando tentamos ouvir o ouvinte subjetivo, tudo o que encontramos são sons objetivos. E isso significa que não ouvimos sons, nós somos esses sons. O ouvinte é todo som ouvido, e não uma entidade separada que recua e ouve o ouvir.  Wilber, Ken – A consciência sem fronteiras, pág, 71.

[18] (….) Pois a eternidade não é a consciência de um tempo sem fim, mas uma consciência que, em si mesma, situa-se fora do tempo. O momento eterno é um momento atemporal, que não conhece passado nem futuro, antes nem depois, ontem nem amanhã, nascimento nem morte. (….) Podemos dizer, e o místico concordaria, que o tempo parece suspenso em todas essas experiências porque, nelas, somos totalmente absorvidos pelo momento presente. É claro que, nesse momento presente, caso nos limitemos a examiná-lo, não existe tempo. O momento presente é um momento atemporal, e um momento atemporal é um momento eterno. Wilber, Ken – A consciência sem Fronteiras, pags 84,85.

[19] Kiirtan é um tipo especial de mantra que expressa o poder da devoção.

[20]Tu-Py: Som em pé – o corpo, habitado pelo Avá – a luz, que tem sua morada no coração. O Corpo Som-Luz de Ser.

[21] Kaká Werá: A Terra dos Mil Povos, 4ºedição.

[22] Alfa e Teta são ondas elétricas cerebrais, que se diferenciam pela forma, amplitude  e ritmo. Ondas elétricas cerebrais  são ondas eletromagnéticas produzidas pelas células cerebrais, medidas por ciclos por segundo (Hertz) e mudam de acordo com a atividade elétrica dos neurônios. Cada padrão de onda está relacionado com um  estado diferente de consciência. Ondas Alfa, cuja freqüência varia de8 a 12 Hz, estão relacionadas ao relaxamento, estado mental de atenção e serenidade. Pesquisas levam a crer que nesta freqüência há uma elevação na produção de serotonina, neurotransmissor relacionado ao estado de bem-estar e ao alívio da dor. A falta de serotonina está relacionada aos estados de depressão.Ondas Teta são ondas cuja freqüência varia de4 a8Hz e estão relacionadas aos estados de meditação profunda e vigília. Pesquisas aportam, no estado Teta, para uma maior produção de catecolaminas, neurotransmissor ligado à memória, plasticidade mental e aprendizagem. Em ambos os estados – Alfa e Teta- verifica-se uma maior produção de endorfinas, neurotransmissor responsável pelos estados de maior concentração, pacificação, prazer e alegria interior.

[23] “As canções são enraizadas no mundo físico, mas seu impacto está nas camadas mais sutis da mente humana. As canções produzem uma onda vibracional que faz nossas ondas mentais tornarem-se retas e, ao endireitar, as ondas mentais tocam, por sua vez, no ponto da alma”Citação de P.R. Sarkar, mestre indiano.

[24] “Cantar ou falar ritmicamente é em seu sentido mais profundo uma invocação ativa, uma realização, um intercâmbio no interior da camada acústica do mundo….O mundo foi criado através da energia cantante como primeira manifertação de um pensamento em que o som da vibração primordial sacrificou a si mesmo,  sendo progressivamente elaborado num ritmo espiralado crescente de novas vibrações cada vez mais altas, metaforseando-se aos poucos em pedra e carne.” Shneider, M, Pedras que Cantam, pág.12.

[25] “O segredo era bem conhecido por mestres de todas as épocas: os antigos rishis (videntes) indianos, que viviam solitários nas escarpas do Himalaia, os sufis persas, adeptos do culto a Zoroastro, os sarcedotes nas pirâmides esípcias, os magos vudu e os curandeiros da África e da América do Sul sabiam e sabem que as sílabas e palavras mântricas, sejam elas cantadas ou recitadas, provocam um fenômeno interno sutil, que gradualmente despertam os centros invisíveis de energia, levando-os a dimensões profundas da consciência.” Hamel, Peter M., O Autoconhecimento Através da Música, cap.III,  pág. 148 e149.

O Canto da Floresta e o Pulsar do Coração

Posted by on Nov 29, 2011 in artigos | 1 comment

Por Cecília Valentim

Todos os dias há cerca de um mês e meio, um sabiá canta na minha janela ao amanhecer. Acordo e, bem quieta, como se ainda estivesse dormindo, me deixo envolver pelo seu canto. Sinto-me privilegiada por acordar dessa maneira em uma cidade como São Paulo. No meu silêncio e no canto do sabiá, começo a ouvir o ruído branco da cidade, lembrando que é hora de levantar.

O ruído branco, resultado de uma combinação de sons de todas as freqüências que se somam e envolve a cidade, aumenta de intensidade a cada dia. Quando a intensidade é baixa e é gerado por freqüências naturais, como o som do mar, o ruído branco pode ser relaxante, mas, em uma intensidade maior, cria em nós um estado de tensão e estresse que, sem que percebamos, nos põem para funcionar. O Sabiá, o silêncio, o sensível, desaparecem.

Na sua caminhada, os humanos foram se desligando da paisagem sonora natural e se ligando na tomada da paisagem sonora urbana, onde não há espaço para o silêncio e o ouvir. Os ruídos de fora se tornam os ruídos de dentro. Escutar-se é doloroso.

Aqui, nesse espaço, a intenção é possibilitar a escuta da música que acontece o tempo todo em nós e ao nosso redor, questionar a paisagem sonora que geramos, constituímos, vivemos e vibramos, levantar as questões sobre os efeitos do som e da música no comportamento humano e em outros animais, para o bem e para o mal: nas últimas décadas,várias espécies, principalmente pássaros, foram expulsos ou extintos por conta do barulho criado pelos humanos, que invadiu seus habitats.

Agora é quase noite, o Sabiá silenciou. Escuto um cachorro ao longe, um avião passando, uma moto próxima, um helicóptero, carros em uma avenida distante, o ventilador do computador, vozes. Um tanto saudosista, sinto falta do sino da igreja, das crianças na rua, do canto do riacho e, principalmente, dos grilos e seres da noite que constituíram a trilha sonora afetiva da minha infância nessa mesma cidade…

Artigo publicado no site da Anda -Agência Nacional dos Direitos Animais, coluna Pulsar, em 01/10/2010

Nigun

Posted by on Aug 19, 2011 in artigos | 0 comments

O Canto da Alma

Uma Breve introdução

 

Por Cecília Valentim

 

Criado no início do sec.XVIII, como um novo gênero de música vocal judaica, o Nigun surge no Movimento Hassídico[1] como uma poderosa forma de expressão espiritual. É freqüentemente descrito como prece musical, além das palavras: A Caneta da Alma.

Embora o Canto e Dança sempre tenham feito parte da tradição judaica, o Nigun reflete a criativa e radical natureza da Teologia Hassídica, no que diz respeito à força da Música no Universo, descrita desde a Idade Média pelos Místicos Judeus Cabalistas.

Nigun significa melodia em hebraico. É um canto circular, cuja intenção é abrir os portões da alma em direção ao Êxtase Sagrado, a transcendência, que deve ser trazida a terra para despertar os corações da humanidade às verdades interiores, a Deus. No lugar das palavras que, segundo a tradição Hassídica, limitam e definem a mente, são usadas sílabas que não possuem sentido, como: Daí, daí, bim , bom, doi doi. Em geral é cantado sem acompanhamento instrumental, pode ser lento ou meditativo, rápido ou jubilante, de acordo com o que se deseja expressar, formando múltiplas frases melódicas.

Existem algumas formas diferentes de Nigun, associados ao estudo do Talmud, preces ou outros aspectos da vida tradicional judaica. Os três principais tipos na tradição Hassidica são:

Deveyekut nigunin: lentos, melodia livre, sem ritmo definido, não métrica, reflexivo, para ser cantado individualmente, em uma relação pessoal com Deus.

Dance Tunes: simples, rápido e rítmico, para ser cantado e dançado em grupo, em uníssono.

Tish Nigunin: Lentos e complexos, freqüentemente cantados no Sabbath, nas festas e na presença do Rabino.

 

Segundo o Rebe de Chabad, “A Canção está no âmago da vida; sua fonte é o êxtase mais sobrenatural.” Ele explica:
“Um rio descia do Éden para regar o jardim…” (Bereshit 2:10) – vindo da fonte de todo o deleite, o rio da vida flui para baixo, ramificando-se para cada mundo e todo ser criado. Cada coisa anseia para juntar-se com sua fonte acima, e deste anseio vem sua canção, e com aquela canção ela se torna viva. Os céus cantam, o sol, os planetas e a luz; cada animal, cada planta, cada rocha tem sua canção particular, segundo a maneira pela qual recebe a vida.

“Até o cosmos inteiro pulsa com uma sinfonia de incontáveis anjos e almas e animais e plantas e até cada gota de água e molécula de ar cantando a canção que lhe dá vida.

“É por isso que um nigun traz uma onda de vida nova, adoça a alma amarga e preenche o lar com luz – como as canções entoadas por David para o rei Shaul, que curaram seu espírito amargo. Uma canção é unidade. Uma canção se volta sobre si mesma num círculo de unidade, até que não haja princípio nem fim.”

O poder do Nigun é experimentado por todos que desenvolvem o Canto e a prática com devoção e entrega ao coração do divino.

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[1] O Judaísmo chassídico ou hassídico (do hebraico חסידים, Chasidut para os sefardim;Chasidus para os asquenazes, piedosos ou devotos) é um movimento dentro do judaísmo ortodoxo que promove a espiritualidade e existiu praticamente em todas as eras da história judaica. Fonte: wikipédia

Overtone Chanting

Posted by on Aug 19, 2011 in artigos | 0 comments

Overtone Chanting
O Canto dos Harmônicos

Por Cecília Valentim

“Uma noite, em 1433, o Lama Tibetano Je Tzong Sherab Senge teve um so­nho revelador. Nele, ouviu uma voz que jamais tinha ouvido: era grave, in­crivelmente profunda, um som que não parecia humano. Combinado a esta voz, havia uma segunda, aguda e pura, como a voz de uma criança can­tando. Estas duas vozes, totalmente diferentes, tinham a mesma origem, que era ele mesmo. No sonho, Je Tzong é instruido a incorporar este canto especial em suas práticas de meditação. Foi–lhe revelado como um canto que integra os aspectos femininos e masculinos da energia divina, uma voz tântrica que une todos os cantos na rede da consciência universal” (Jonatham Goldman, Healing Sound)

Esta é uma das histórias contadas sobre o Canto harmônico. Atual­mente, sabemos que este tipo de canto é uma prática ancestral em diversas tradições e que, provavelmente, os tibetanos a encontra­ram na Mongólia e na Sibéria, quando o budismo tibetano lá apor­tou. Sabemos também que era uma antiga prática entre os pastores nórdicos para pastorear suas ovelhas, e ainda o é entre os aborígines australianos e os índios brasileiros, que a utilizam em rituais, como forma de acessar o mundo espiritual.

Uma Visão Geral

O Canto Harmônico torna audível o espectro natural das freqüên­cias que compõem cada som. É uma forma de canto onde se pode cantar simultaneamente uma nota (fundamental) e seus harmônicos, selecionando-os e amplificando-os por meio de uma técnica simples e específica. São altas freqüências que flutuam acima do som funda­mental emitido pelo cantor. A técnica envolve a criação de uma de­terminada cavidade acústica dentro da boca, dada pela língua, pelo abaixamento da laringe e o uso de uma seqüência de vogais que configura uma maior composição de harmônicos. Alguns cantores, em especial em Tuva, região da Mongólia, são capazes de cantar de cinco a seis freqüências acima da nota fundamental, simultane­amente.

O Poder do Canto Harmônico

Estudos acadêmicos mostram que cantar em geral, mas, principal­mente cantar os harmônicos, modula as ondas elétricas do cérebro, leva a uma maior coerência cerebral e amplitude das ondas Alpha e Theta, semelhante aos estados de meditação, abrindo as portas para outros níveis de consciência. Estudos empíricos mostram que cada vogal e cada harmônico vibra em um determinado chackra. São al­tas freqüências que ressoam em nosso organismo, em cada centro energético sutil do nosso corpo, transformando a dissonância em consonância. Encontramos referências a isto em textos do Budismo Tibetano e entre os Guaranis, que em sua tradição, consideram o humano um Tu-py, ou seja, flauta em pé, afinada a partir dos tons essenciais do ser, tons que participam de todos os seres, assim como a série harmônica compõe todos os sons e cada som é uma determi­nada composição de harmônicos. Eis a seqüência de vogais encon­trada em ambas as tradições: Y, U, O, A, E, I. Nesta seqüência, cada vogal se refere a um chacka, a partir do chacka da raiz. No sétimo chacka, no topo da cabeça, reside o silêncio. (A prática de entoar as vogais como caminho para o êxtase ou iluminação também é encon­trada nos textos sacros Hebreus e Bizantinos)

A Prática

O Canto Harmônico amplia o espectro de percepção vocal, auditi­vo, corporeomental, e leva a um estado de liberdade, pacificação interna e bem-aventurança. É uma prática espiritual que permite que nos conectemos profundamente com nossa vibração original e “limpemos” as vibrações que não nos pertencem e, assim, estar em nossa freqüência, sendo puramente quem somos, o que é vital para este instante do Planeta e para todos os seres que aqui vivem.

 

Mantras

Posted by on Aug 19, 2011 in artigos | 1 comment

Sobre o Mantra: Uma breve introdução

“A sutil vibração do Kiirtan1 harmoniza e normaliza as funções glandulares do corpo, dissolve o egoísmo, elimina os pensamentos negativos e cria uma extraordinária vibração de beatitude, despertando a evoção e o desejo interno pela Plena Consciência” (P.R. Sarkar) - Por Cecília Valentim

Mantra significa “o som que liberta a mente”.

Segundo as antigas escrituras da Índia e de outras tradições2 , ao longo da coluna verte­bral e no cérebro, existem sete centros de energia ou “chakras”3. A ideação e a vibração acústica sutil do mantra ressoa nos centros energéticos dos chakras e nas glândulas endócrinas a elas associadas, equilibrando o fluxo de energia do corpo, refletindo dire­tamente na saúde corpóreomental  do praticante.

Estudos acadêmicos mostram que cantar em geral mas, principalmente cantar Mantras, modula as ondas elétricas do cérebro, leva a uma maior coerência cerebral e amplitude das ondas Alfa e Teta4, semelhante aos estados de meditação, abrindo as portas para ní­veis sutis5 da consciência6. Isto se dá pela forma circular do mantra que, musicalmente, significa a ausência de sensação de começo e fim, simplicidade na estrutura melódica, harmônica e rítmica e pela repetição da frase, que gera um pulso regular7. Estudos em­píricos mostram que cada vogal e cada harmônico vibra em um determinado chackra8. Portanto, ao cantar mantras, altas freqüências ressoam em nosso organismo, em cada centro energético sutil do nosso corpo, transformando a dissonância em consonância, a incoerência em coerência, dissolvendo as interferências que geram distorções em nosso padrão original, restaurando a vibração onde somos puramente nós mesmos e, ao mesmo tempo, o sentimento de pertencimento a uma vibração maior, de todos.

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1 Kiirtan é um tipo especial de mantra que expressa o poder da devoção.

2 Encontramos referências a este tema em textos sagrados de antigas tradições  como o Tantra, o Budismo Tibetano, entre os  Hebreus, os  Bizantinos e os Persas. No Brasil,  na tradição Guarani, o humano é considerado Tu-py, ou seja, flauta em pé, afinada a partir dos tons essenciais do ser, tons que participam de todos os seres, assim como a série harmônica compõe todos os sons e cada som é uma determinada composição de harmônicos.São sete os tons que os antigos guaranis utilizavam para afinar o espírito. Estes tons são as vogais Y U O A E I , do primeiro ao sexto chakra e, por últi­mo, o som “insonoro”, no sétimo chakra.

3 Ao longo da coluna vertebral existem sete centros básicos de energia, chamados  de Chakras. Cada centro de energia ou chakra, está ligado uma glandula endócrina específica.

4 Alfa e Teta são ondas elétricas cerebrais, que se diferenciam pela forma, amplitude  e ritmo. Ondas elétricas cerebrais  são ondas eletromagnéticas produzidas pelas células cerebrais, medidas por ciclos por segundo (Hertz) e mudam de acordo com a atividade elétrica dos neurônios. Cada padrão de onda está relacionado com um  estado diferente de consciência. Ondas Alfa, cuja freqüência varia de 8 a 12 Hz, estão relacionadas ao relaxamento, estado mental de atenção e serenidade. Pesquisas levam a crer que nesta freqüência há uma elevação na produção  de serotoninas, neurotransmissor relacionado ao estado de bem-estar e ao alívio da dor. A falta de serotonina está relacionada aos estados de depressão.

Ondas Teta são ondas cuja freqüência varia de  4 a 8Hz e estão relacionadas aos estados de meditação profunda e vigília. Pesquisas aportam, no estado Teta, para uma maior produção de catecolaminas, neurotransmissor ligado à memória, plasticidade mental  e aprendizagem. Em ambos os estados – Alfa e Teta- verifica-se uma maior produção de  endorfinas, neurotransmissor responsável pelos  estados de maior concentração, pacificação, prazer e alegria interior.

5 “As canções são enraizadas no mundo físico, mas seu impacto está nas camadas mais sutis da mente humana. As canções produzem uma onda vibracional que faz nossas ondas mentais tornarem-se retas e, ao endireitar, as ondas mentais tocam, por sua vez, no ponto da alma”

Citação de P.R. Sarkar, mestre indiano.

6 Em seu livro O Universo Autoconsciente, Amit Goswami define a  consciência como o fundamento do ser – original, auto-suficiente e constitutiva de todas as coisas – que se manifesta como o sujeito que escolhe, e experimenta o que escolhe, ao produzir o colapso auto-referencial da função de onda quântica em presença da percepção do cérebro-mente.

7 “Cantar ou falar ritmicamente é em seu sentido mais profundo uma invocação ativa, uma realiza­ção, um intercâmbio no interior da camada acústica do mundo….O mundo foi criado através da energia cantante como primeira manifertação de um pensamento em que o som da vibração primordial sacrifi­cou a si mesmo,  sendo progressivamente elaborado num ritmo espiralado crescente de novas vibrações cada vez mais altas, metaforseando-se aos poucos em pedra e carne.” Shneider, M, Pedras que Cantam, pág.12.

8 “O segredo era bem conhecido por mestres de todas as épocas: os antigos rishis (videntes) indianos, que viviam solitários nas escarpas do Himalaia, os sufis persas, adeptos do culto a Zoroastro, os sarcedotes nas pirâmides esípcias, os magos vudu e os curandeiros da África e da América do Sul sabiam e sabem que as sílabas e palavras mântricas, sejam elas cantadas ou recitadas, provocam um fenômeno interno sutil, que gradualmente despertam os centros invisíveis de energia, levando-os a dimensões profundas da consciência.” Hamel, Peter M., O Autoconhecimento Através da Música, cap.III,  pág. 148 e149.

 

O Ser Cantante

Posted by on Aug 18, 2011 in artigos | 1 comment

O Ser Cantante

“O Sopro da criação transforma-se em som e anima a vida em todos os seres. A alma, como informação que transcende a eternidade, vibra a matéria e ressoa por toda a extensão da emoção humana em um único instante.”

Por Cecília Valentim*

O Canto Potencial

“Cantar ou falar ritmicamente é em seu sentido mais profundo uma invoca­ção ativa, uma realização, um intercâmbio no interior da camada acústica do mundo…. O mundo foi criado através da energia cantante como primeira ma­nifestação de um pensamento em que o som da vibração primordial sacrificou a si mesmo, sendo progressivamente elaborado num ritmo espiralado crescente de novas vibrações cada vez mais altas, metaforseando-se aos poucos em pedra e carne.”

M. Shneider 1

A Nova Ciência2 nos traz, a cada dia, novas informações acerca do mun­do do infinitamente pequeno, das partículas que constituem o átomo e a matéria.

Inúmeros experimentos em laboratórios de Física, em especial na Física Quântica, comprovam o que os antigos sábios da Índia já diziam há cinco mil anos: Nada Brahma3 – O mundo é som.

Na busca de uma teoria unificada4, chegamos a Teoria das Supercordas, que propõe que toda matéria e todas as forças provêm de um único componente: cordas oscilantes. A proposta dessa teoria é que as cor­das são os ingredientes ultramicroscópicos que formam as partículas, que por sua vez, compõem os átomos5. Se toda a matéria é composta por partículas, incluindo a matéria humana, podemos ousar dizer que todos nós somos vibração em origem e essência, portanto, seres vibran­tes6, cantantes por natureza.7 Somos o próprio canto, que se manifesta por meio da nossa voz.

Quando cantamos estamos usando a matéria-prima som para fazer mú­sica – Arte que se constitui de uma linguagem, signos sonoros8 e, por­tanto, integrando as funções do sentir, do processar, do perceber em estruturar em uma estética e expressão de comunicação que é por si só, forma, conteúdo, corpo e espírito, mensageiro e mensagem9. Cantamos com a totalidade do nosso Ser, comunicamos quem somos e o que sen­timos; vibramos e manifestamos nossa alma.

Canto e Consciência

“A música derrete o demorado das realidades” Guimarães Rosa

Em seu livro O Universo Autoconsciente, Amit Goswami define a cons­ciência como o fundamento do ser – original, auto-suficiente e consti­tutiva de todas as coisas – que se manifesta como o sujeito que escolhe, e experimenta o que escolhe, ao produzir o colapso auto-referencial da função de onda quântica em presença da percepção do cérebro-mente.10

Cantar é escolha: quando cantamos somos os geradores da ação de can-tar e ativamos nossos sentidos e nossa expressão; acionamos a trilha sonora que acompanha as imagens da nossa existência, registrada em um corpo emocionado que delimita o espaço-tempo ao instante em que ocorre a experiência, tornando-a única e pessoal. Abrimos as portas para outros níveis de percepção, onde sujeito e objeto se fundem e se tem a autoconsciência de ser o sujeito dessa experiência, observando a si mesmo como instrumento da própria ação11.

A consciência de nós mesmos é relativa ao sentimento de pertencer a uma totalidade, onde vibramos puramente nós mesmos; por meio do canto, eu filtro a realidade que sou naquele instante e manifesto uma dentre infinitas possibilidades. Aqui, por consciência refiro-me à cons­ciência da unidade, onde o ato de ser o próprio canto revela, contém e compõe o cantar de todos.

O Poder Cantante: reflexões

“Cada organismo possui seu próprio grau de vibração, e isso se aplica também a todo objeto inanimado, de um grão de areia a uma montanha, e mesmo a cada planeta e cada sol. Quando este grau de vibração é conhecido, torna-se possível visualizá-lo internamente e assim decompor ou tornar consciente o organismo ou a forma”.

W.Y. Evans-Wentz12

O Ser Cantante é o Ser Vibrante em origem e essência que manifesta, por meio da voz e da arte música, o canto da sua alma pela eternidade13.

O Poder Cantante é o som do verbo, informação que transgride a maté-ria e faz a mediação alquímica entre a vibração primordial e o ser que se fez carne: há uma canção acontecendo o tempo todo em meu corpo, conectando-me a outras canções e freqüências, criando uma rede e um todo, onde sou um com minha canção, compondo uma canção maior, de todos.

Bibliografia

Greene, Brian, O Universo Elegante: supercordas, dimensões ocultas e a busca de uma teoria definitiva –Companhia das Letras, São Paulo, 2001 Koestler, Arthur, O Homem e o Universo – Ed. Ibrasa , São Paulo, 1989. Berendt, Joachim-Ernest, Nada Brahma: a música e o universo da consciência

- Editora Cultrix, São Paulo.

Fabre d’Olivet, Antoine, Música apresentada como ciência e arte: estudo de suas relações analógicas com os mistérios religiosos, a mitologia antiga e a história do mundo – Madras Editora, São Paulo, 2004.

Jecupé, Kaka Werá, A terra dos mil povos: história indígena brasileira conta­da por um índio – Ed. Fundação Peirópolis, São Paulo, 1998.

Gaynor, Mitchell L., Sons que Curam – Ed. Pensamento-Cultrix, São Paulo, 1999.

Koellreutter, H.J, Terminologia para uma nova estética da música – Ed. Movi­mento, Porto Alegre, 1990

Damásio, Antônio R., O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano

– Companhia das Letras, São Paulo, 1996.

Sacks, Oliver W., O homem que confundiu sua mulher com um chapéu e ou­tras história clínicas –Companhia das Letras, São Paulo, 1997. Lowen, A, Alegria: a entrega ao corpo e a vida – Summus editora, São Paulo,

1997

Hamel, Peter M., O Autoconhecimento Através da Música: Uma nova maneira de sentir e viver a Música – Cultrix, São Paulo, 1989 Andrews, Susan, Stress a seu favor: como gerenciar sua vida em tempos de

crise – Instituto Visão Futuro, São Paulo, 2001 Sarkar, P.R,  Kiirtan, Um Meio para Elevação da Consciência. Muszkat, Mauro e colaboradores, Música e Neurociências – Artigo – Rev.

Neurociências 8, pág.70-75, 2000. Chatwin, Bruce, The Songlines – Penguin Books USA, 1988 Wilber, Ken, A Consciência sem Fronteiras: Pontos de Vista do Oriente e do

Ocidente sobre o Crescimento Pessoal – Cultrix, São Paulo, 1979.

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1 M. Scheneider – Pedras que Cantam, pág.12

2 Termo que designa um conjunto de conhecimentos e áreas do saber, como a Física Quân­tica, que estão, nos últimos anos, questionando a perspectiva materialista e racionalista da ciência predominante.

3 Na mitologia hindu, o som primordial é conhecido como Nada, que em sânscrito significa som. O cosmo nasce quando o deus Brahma, criador do mundo, o toca em seus címbalos.  Hamel, Peter M. O Autoconhecimento Através da Música, pág. 147.

4 Teoria capaz de descrever as forças da natureza por meio de  um esquema único, completo e coerente. Greene, Brian, O Universo Elegante: supercordas, dimensões ocultas e a busca da teoria definitiva, pág.9.

5 Greene, Brian – O Universo Elegante: supercordas, dimensões ocultas e a busca da teoria definitiva, cap 6,pág.156

6 Segundo Alexander Lowen, criador da Anélise Bioenergética, abordagem psicoterapeutica neo-reichiana, um corpo vivo é um corpo vibrante:“Os indivíduos cujos corpos estão cheios de vida e vibrantes conseguem sentir a realidade de seu ser e podem ser descritos como pessoas sensíveis. A sensibilidade é a qualidade de uma pessoa que está plenamente viva” – Lowen, A. – Alegria,  a entrega ao corpo e a vida, pág. 36 e 219.

7 Nesse sentido, podemos considerar a doença como uma interferência negativa ou ruído, uma distorção no nosso padrão vibratório original. Segundo Novalis, poeta e místico do romantismo, toda doença é um problema musical.

8 Koellreutter, H.J,  Terminologia de uma nova estética da Música,  pág.90.

9 Extraído do artigo Música e Neurociências de Mauro Muszkat e colaboradores-Unifesp.

10 Extraído do Livro O Universo Autoconsciente – como a consciência cria o mundo material, Amit Goswami e colaboradores, pág 324.

11 Segundo Ken Wilber, quando tentamos ouvir o ouvinte subjetivo, tudo o que encon­tramos são sons objetivos. E isso significa que não ouvimos sons, nós somos esses sons. O ouvinte é todo som ouvido, e não uma entidade separada que recua e ouve o ouvir. Wilber, Ken – A consciência sem fronteiras, pág, 71.

12 Evans-Wentz, W.Y – Antropólogo,  Editor e Tradutor – Em adendo ao Livro Tibetano dos Mortos.

13 (….) Pois a eternidade não é a consciência de um tempo sem fim, mas uma consciência que, em si mesma, situa-se fora do tempo. O momento eterno é um momento atemporal, que não conhece passado nem futuro, antes nem depois, ontem nem amanhã, nascimento nem morte. (….) Podemos dizer, e o místico concordaria, que o tempo parece suspenso em todas essas experiências porque, nelas, somos totalmente absorvidos pelo momento presente. É claro que, nesse momento presente, caso nos limitemos a examiná-lo, não existe tempo. O momento presente é um momento atemporal, e um momento atemporal é um momento eterno. Wilber, Ken – A consciência sem Fronteiras, pags 84,85.